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Apresentação do Livro

 

A crise que, a começos do novo milênio, aflige a um grande número de crentes, é um conflito de fé. Estudiosos dos fenômenos religiosos nos ilustram de tempo em tempo com investigações de resultados alarmantes sobre as coisas “tão pouco católicas” que acreditam muitos “católicos”. É inocultável certo renascimento religioso; neste sentido parece passada, no momento, a gelada noite de ateísmo que caracterizou os três primeiros quartos do século passado. Entretanto, duas conseqüências nefastas se têm prendido como abrolhos nas crinas do homem que tem saltado a linha que dividia os séculos XX e XXI.

A primeira é a enfermidade da dúvida que pesa sobre muitas verdades de fé. Muitos homens e mulheres contemporâneos não são ateus; mas podemos dizer que são crentes? O cientificismo (ou seja: alarde de falsa ciência) parido pelo ateísmo, lhes tem ensinado a duvidar; a recear irracionalmente do que não vêem seus olhos e do que não tocam seus dedos. Nas décadas do mundo sem Deus, nasceram gerações de “toperas” espirituais: jovens e velhos habituados a transitar pelas tocas do cepticismo. Como não sofrer, enquanto crentes, as objeções desta geração de suspicazes e receosos nossos irmãos?

A segunda conseqüência responde a um princípio antropológico e cultural, e deve ser como a filha natural do ateísmo veintecentesco. Pode-se expressar dizendo: quando se deixa de acreditar em Deus o problema que surge não é que já não se pode acreditar em nada senão se pode acreditar em algo. Dito de outro modo: cada vez que na história se produziu uma crise profunda sobre o sentido autêntico de Deus e um descarado domínio do racionalismo, surgiram como fungos todo tipo de superstições e crenças alternativas, criando um clima cultural de tipo mágico. O final do século XX, privado de Deus pelas ideologias de moda, ficou, entretanto alagado de falsos deuses. Nas soleiras do século XXI, herdamos, pois, uma época altamente supersticiosa. Muitos homens e mulheres de nosso tempo podem pôr em dúvida a existência de Deus ou a figura de Jesus Cristo, mas em troca acreditam “a pé juntos” no horóscopo, o tarô, o oráculo chinês, na borra de café, nos biorritmos, na parapsicologia, no triângulo das Bermudas, nos segredos da Grande Pirâmide. Não lêem o Novo Testamento nem conhecem a vida de Jesus Cristo, mas são viciados em toda a literatura “new age”. Não rezam a Deus nem vão a Missa, mas não perdem oportunidade de meter-se enquanto curso lhe ofereçam de meditação transcendental, ioga ou budismo. Não aceitam a Encarnação do Verbo, mas tragam tudo que lhe relatam as sagas futuristas de moda. Tudo isto forma parte de um fenômeno do que se pode dizer que “não se trata de um ‘inimigo’ cujo rosto pode ver-se com claridade, pois não é um movimento religioso ou uma seita que se apresenta com um perfil nítido e delineado, senão que se trata de uma modalidade de pensamento que se difunde como corrente intelectual e espiritual, que impregna silenciosamente a cultura contemporânea em muitas de suas expressões”[1]. Não faz falta dizer que isto põe sérias dúvidas aos cristãos pouco formados.

Por todos estes motivos, os católicos (e às vezes os não católicos) perguntam pela fé e pela moral ensina a Igreja. Às vezes para aprender o que não sabem; outras para dar uma base mais sólida ao que professam.

Este livro nasceu respondendo facilmente muitos destes interrogantes.

Trata-se este de um livro peculiar. Tenho reunido nele consultas de muito diversos teor e procedência. Algumas delas foram publicadas na seção “O Teólogo Responde” da Revista Diálogo. E o Verbo se fez Carne, do Instituto do Verbo Encarnado; outras na seção do mesmo nome da página de internet do mesmo Instituto: www.iveargentina.org; seção “O Teólogo Responde” (a que se acessa também através de outras páginas – dos Estados Unidos, México e Itália – que viram neste trabalho um importante serviço). Muitas, em troca, jamais foram editadas.

Tem-me movido a publicá-las o que, desde que dirijo ambas as seções (a impressa e a internética) as consultas foram sempre incrementando em número e importância (muitas são questões delicadas de consciência e não mera curiosidade) e em muitos casos voltam a repetir-se velhas consultas que o espaço destes meios não me tem permitido pôr a disposição de todos.

Desta maneira quero oferecer em alguns volumes aqueles interrogantes que me tem parecido mais sugestivos e úteis para os cristãos que devem adentrar no terceiro milênio rodeados de interpelações pendentes.

 P. Miguel Ángel Fuentes, IVE

Vila de Luján, São Rafael

Março de 2001


 

[1] Instrumentum laboris para a Assembléia especial para América do Sínodo dos bispos, L’Osservatore Romano, 19 de setembro de 1997, nº. 47


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