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QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS DAS RELAÇÕES PRÉ-MATRIMONIAIS?

  

Estimado Padre:

Tenho lido sua resposta sobre as relações sexuais entre noivos. Ficou-me, entretanto, uma dúvida: quais são as consequências às que se expõem os noivos que vivem seu noivado como se já estivessem casados?

 

 

Na resposta a que você alude, expus o argumento central sobre a imoralidade de tais relações. Não me estendi analisando as conseqüências mais comuns das relações pré-matrimoniais porque, no fundo, são argumentos secundários. Entretanto, agradeço sua consulta porque me dá oportunidade para reforçar o juízo negativo que delas fizemos.

 1. As consequências mais comuns que costumam seguir-se

 Entre as conseqüências que habitualmente costumam seguir-se das relações sexuais pré-matrimoniais podem destacar-se[1]:

 1º Na ordem biológica:

a) Frigidez: sabe-se medicamente, que a atividade sexual exercida por jovens de 15 a 18 anos de idade pode ser causa de frigidez em épocas posteriores; em alguns estudos, 45% das mulheres interrogadas se referiram à falta de capacidade de reação sexual como uma conseqüência temível das relações prévias ao matrimônio; está comprovado que muitas mulheres não são frígidas por constituição, mas por causa de inadequadas experiências sexuais antes do matrimônio. Isto provoca, em alguns casos, o fenômeno das pseudo-lésbicas e das anfíbias, quer dizer, das mulheres que procuram o encontro amoroso com outras mulheres, porque ficaram decepcionadas com os homens, ou alternam indiferentemente a companhia íntima dos homens com a das mulheres.

b) Enfermidades venéreas: “entre os milhares de casos venéreos tratados – afirma Carnot – nunca encontrei um só que não tivesse por origem direta ou indireta uma desordem sexual”. Entre estas as mais extensas são a sífilis, a blenorragia e atualmente a Aids.

c) Gravidez: embora a maioria dos noivos recorra à anticoncepção (acrescentando uma maior gravidade a seu pecado de fornicação), esta –como já se sabe – não é capaz de evitar a gravidez que acontece por “descuido” ou por “falhas” dos mesmos métodos anticoncepcionais.

2º Na ordem psicológica:

a) Cria temor: como, em geral, as relações acontecem na clandestinidade, criam um clima de temor: temor de serem descobertas, temor de serem traídas depois (sendo abandonadas), temor da fecundação, temor da infâmia social. Além disso, criam outra alteração passional, ou seja, o temperamento ciumento: a falta de vínculo legal causa sempre o temor de abandono ou desencanto do noivo ou noiva e a busca de satisfação em outra pessoa; de fato não há nenhum vínculo que o possa impedir; por isso a vida sexual pré-matrimonial gera nos noivos um clima de sistemática suspeita de infidelidade.

b) Dá excessiva importância ao sexo, ao instinto sexual, ao gozo sexual. Isto produz um detrimento das outras dimensões do amor: a afetiva e a espiritual. Disso se ressente o próprio noivado e logo depois o matrimônio. Do mesmo modo, esta centralização do amor no sexo atrasa o processo de maturidade emocional e intelectual. “Uma relação sexual precoce, levada a cabo regularmente, diz Tumlirz,... exerce também seu efeito inibidor sobre o desenvolvimento intelectual e a evolução consecutiva da mente...”.

c) Introduz desigualdade entre o homem e a mulher. De fato, ninguém pode negar que nas relações pré-matrimoniais quem leva a pior parte é a mulher. Esta, com efeito: “perde a virgindade; sente-se escravizada ao noivo que busca ter relações cada vez com maior freqüência; não pode lhe dizer não, porque tem medo que ele a deixe, lhe reprovando que ela já não o quer; vive com grande angustia de que seus pais se inteirem de suas relações; participa das moléstias do ato matrimonial, sem ter a segurança e a tranqüilidade do matrimônio”[2]; vive no temor de ficar grávida; se ficar grávida é empurrada ao aborto pelo noivo, que a deixa sozinha diante dos problemas da gravidez, por familiares e amigos e inclusive por instituições internacionais, fundações e associações que lutam pela difusão do aborto no mundo[3] (apesar disto, conheço casos, talvez excepcionais, em que foi o noivo, uma vez informado de sua paternidade, que quis o nascimento de seu filho, enquanto a noiva estava  obstinada a abortar).

 3º Na ordem social:

a) Casamentos precipitados. A experiência demonstra até a exaustão que a gravidez não intencional ou a infâmia social, leva, muitas vezes, a se precipitar o matrimônio quando se carece da devida maturidade para enfrentá-lo e este, por sua vez, termina em uma ruptura já irreversível. Sabemos bem disso, nós sacerdotes que temos que enfrentar muitas vezes os dramas matrimoniais que têm esta origem.

b) Abortos procurados. A experiência também nos mostra um número cada vez maior de abortos e, sobretudo, a relação entre a mentalidade abortista e a mentalidade anticonceptiva[4]. Ora, ninguém pode negar que esta última é o ambiente mais comum para quem pratica o sexo pré-matrimonial; consequentemente, também o aborto será uma de suas mais nefastas consequências.

c) Maternidade ilegítima. Quando não se efetua o aborto e não se opta pelo casamento apressado, termina-se enfrentando uma maternidade ilegítima. Uma das preocupações mais angustiosas de nossa época é o problema das mães solteiras adolescentes. Segundo algumas estatísticas, a maior percentagem de filhos ilegítimos que não são ceifados pelo aborto corresponde às jovens de 15 a 19 anos, logo seguem as que têm entre 20 e 24 anos; a taxa mais baixa é a das menores de 15 anos.

 2. Qual é o conselho mais sábio para nos noivos? Guardar a castidade antes do matrimônio!

A castidade perfeita antes do matrimônio é essencial ao amor: “Os noivos são convidados a viver a castidade na continência. Nesta provação, eles verão a descoberta do respeito mútuo, a aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem ambos da parte de Deus. Reservarão para o tempo do casamento as manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Ajudar-se-ão mutuamente a crescer na castidade”[5].

Entre outros motivos podemos indicar os seguintes:

1º A castidade é a arma que o jovem ou a jovem tem para ver se é realmente amado (a) por seu futuro (a) cônjuge.

Isto por várias razões:

a) Porque se realmente um ama ao outro, não o levaria a pecado sabendo que o degrada diante de Deus, faz-lhe perder a graça e o expõe à condenação eterna.

b) Porque é a única forma que tem um jovem ou uma jovem de demonstrar verdadeiramente que quer reservar-se exclusivamente para quem terá que ser seu cônjuge. Com efeito, ao não aceitar ter relações com seu noivo(a), com quem está mais exposto a tentações, menos provável é que o faça com outro. Em troca, se o fizerem entre si sabendo que isto pode levá-los a um matrimônio repentino ou a certa infâmia social, o que garante que não o faça também com outros ou outras com quem não tem compromisso algum e, sobretudo, quando ninguém vai se inteirar? O não consentir nas relações pré-matrimoniais é um sinal de fidelidade; o contrário pode ser indício de infidelidade.

c) Finalmente, porque fazer respeitar a própria castidade é a arma para saber-se verdadeiramente amado. Com efeito, se a noiva solicitada por seu noivo (ou ao reverso) nega-se a ter relações por motivos de virtude, podem ocorrer duas coisas: ou que seu noivo respeite sua decisão e compartilhe seu desejo de castidade, o que será a melhor garantia de que ele respeita agora sua liberdade e, portanto, seguirá respeitando no matrimônio; ou que ameace deixá-la (e talvez o faça), o que solucionará de antemão um futuro fracasso matrimonial; porque se o noivo ameaça a sua noiva (ou vice-versa) porque ela ou ele decidem ser virtuosos, significa que o noivado se fundou sobre o prazer e não sobre a virtude, e este é o terreno sobre o qual se fundamentam todos os matrimônios que terminam no fracasso.

2º A castidade é fundamental para a educação do caráter.

O jovem, ou a jovem, que chega ao noivado e se encaminha ao matrimônio não pode evitar a obrigação de ajudar a seu futuro cônjuge a educar seu caráter. A maturação psicológica é um trabalho de toda a vida. Consiste em forjar uma vontade capaz de aferrar-se ao bem apesar das grandes dificuldades. Assim como os pais se preocupam em ajudar seus filhos a obter esta maturação, também o noivo deve ajudar a sua noiva (e vice-versa) e o marido a sua esposa. O trabalho sobre a castidade é essencial para isso; porque é uma das principais fontes de tentações para o homem; conseqüentemente é um dos principais terrenos onde se exercita o domínio de si[6]. Quem não trabalha nisto, não só é um impuro, mas também pode chegar a ser um homem ou uma mulher despersonalizado, sem caráter[7]. E assim como não tem domínio sobre si no terreno da castidade, é provável que tampouco o terá em outros campos da psicologia humana. Que tem o hábito de responder às tentações contra a pureza cometendo atos impuros, responderá às tentações contra a paciência agredindo a sua esposa e filhos, responderá às dificuldades da vida deprimindo-se, responderá à tentação de cobiça roubando e faltando à justiça, e responderá à tentação contra a esperança tirando-se a vida.

3º A castidade é essencial porque a verdadeira felicidade está fundada sobre a virtude.

As virtudes guardam conexão entre si. Não se pode, portanto, esperar que se vivam as demais virtudes próprias do noivado e do matrimônio se não se vive a castidade. Se não se vive a castidade, por que se deveria viver a fidelidade, a abnegação, o sacrifício, o companheirismo, a esperança, a confiança, o apoio, etc.?

A castidade não é a mais difícil das virtudes. Às vezes, pode ser mais fácil que a humildade ou a paciência, quando na intimidade matrimonial se começam a descobrir os defeitos do cônjuge que não se via no idílio do noivado. A guarda da pureza é, por isso, garantia de que se está disposto a adquirir as demais virtudes.

Por tudo isto, podemos concluir: o amor que não sabe esperar não é amor; o amor que não se sacrifica não é amor; o amor que não é virtude não é amor.

 

[1] Cf. José Maria del Col, Relaciones prematrimoniales, Ed. Don Bosco, Bs. As. 1975, pp. 169-221. Tomo, deste estudo, as estatísticas e as citações.

[2] Pe. Carlos Buela, Modernos ataques contra la família, Rev. Mikael, n. 15 (1977), p. 39.

[3] “A decidirem a morte de uma criança ainda não nascida, além da mãe... culpado pode ser o pai da criança, não só quando claramente constringe a mulher ao aborto, mas também quando favorece indiretamente tal decisão, deixando-a sozinha com os problemas de uma gravidez... Nem se podem calar as solicitações que, às vezes, provêm do âmbito familiar mais alargado e dos amigos. A mulher, não raro, é sujeita a pressões tão fortes que se sente psicologicamente constrangida em ceder ao aborto” (Evangelium vitae, 59).

[4] Evangeliun vitae, 13.

[5] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2350.

[6] “A castidade comporta uma aprendizagem do domínio de si, que é uma pedagogia da liberdade humana. A alternativa é clara: ou o homem comanda suas paixões e obtém a paz, ou se deixa subjugar por elas e se torna infeliz” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2339). 

[7] João Paulo II afirmou, por isso, que a pessoa humana tem como “constitutivo fundamental” o domínio de si (Catequese de 22/VIII/84; em L’Osservatore Romano, 26/VIII/84, p. 523 n. 1): “o homem é pessoa precisamente porque é dono de si e domina a si mesmo” (ibid, n. 5), “o domínio de si corresponde à constituição fundamental da pessoa”.


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