A FABULOSA MENTIRA DE “O CÓDIGO DA VINCI”*
“O Código Da Vinci” de Dan Brown é um livro que tem levantado muita polêmica; entretanto, não mereceria um artigo sério, a não ser pelo mal que está (e continuará) causando em tantos desavisados, inclusive em pessoas de boa-fé. Aproveito, pois, a publicação da mais completa refutação das incontáveis falsidades contidas nesse livro para fazer algumas observações a respeito. Carl Olson e Sandra Miesel acabam de editar um livro intitulado “De Da Vinci Hoax”, “El fraude Da Vinci”, um estudo detalhado de 329 páginas (Ignatius Press, San Francisco, Califórnia, 2004) . “A refutação definitiva” assevera Dom Francis George, cardeal de Chicago, em seu prólogo. E com muita razão.
Carl Olson é autor de outros livros, ex-editor da revista Envoy e colaborador em várias publicações católicas de nível (National Catholic Register, First Thing, Crisis). Sandra Miesel é especialista em história medieval pela Universidade de Illinois, e há vinte anos escreve ensaios e artigos sobre história, arte e hagiografia.
Todo mundo – ou quase – já ouviu falar de “O Código Da Vinci”; assim considero, porque tenho sido bombardeado de consultas a respeito; muitos estão encantados com ele, em grande medida, levados pela moda que é, hoje, quem indica o que é interessante ler ou crer, e não pelo conteúdo ou pelo valor literário. De fato, Peter Miller, crítico do The Times de Londres afirmou que “este livro é, sem dúvida, o mais bobo, inexato, mal informado, estereotipado, bagunçado e popularesco exemplo de pulp fiction que já li”; Francisco Casavella, do El País de Madrid, qualificou-o como “o que de mais enfadonho este leitor já teve em mãos desde as “novellas de quiosco”* dos anos 60”. No suplemento cultural do diário El Mundo, Fernando Sánchez Dragó escreveu: “o êxito deste livro responde ao infantilismo generalizado dos seres humanos, alinhado com o mercantilismo dos charlatões da New Age (Nova Era), e a falsa espiritualidade de Paulo Coelho. Seus leitores se encontram entre os aficionados ao futebol e dos telespectadores mais patéticos, gente que não cresceu mentalmente” .
Estando assim as coisas, escrever sobre o “O Código Da Vinci” pareceria uma perda de tempo a não ser pelo motivo assinalado mais acima, pois, como assinala James Hitchcock em sua introdução ao livro “El fraude Da Vinci”, se bem que haja muitos livros sérios escritos sobre os temas mencionados por Dan Brown, “as pessoas que não lêem livros sérios, estão lendo ‘O Código Da Vinci’, e para muitos é o mais próximo a um livro ‘real’ (sério) que eles jamais encontrarão” (p. 14). E continua: “Há uma estranha suposição, que se pode encontrar inclusive em alguns que se professam cristãos, segundo a qual o livro de Dan Brown não teria sido publicado, e não chegaria a ser um best-seller, se não fosse verdade” (p. 14).
“O Código Da Vinci” representa o mais sistemático ataque aos fundamentos históricos do Cristianismo; deve sua efetividade ao fato de não ser uma apresentação teórica e teológica, senão que em forma de romance. É um problema “sério” não por sua profundidade, erudição ou informação senão pela capacidade de dano moral que pode alcançar.
Dan Brown é um pitoresco caso de debilidade: critica toda autoridade, especialmente a Igreja Católica, mas ele fala de tudo, sem duvidar jamais de suas próprias afirmações e com uma ignorância (ou malícia?) artística, histórica e teológica que fazem pasmar.
Quais são os problemas mais sérios de “O Código Da Vinci”? Os autores de “El fraude Da Vinci” resumem-nos em cinco (pp. 33-38):
Afirma ser historicamente preciso e baseado em fatos, mas amiúde não é (grifo nosso e também no que segue). Assim o romance antepõe uma página intitulada “Fatos” (Fact) que afirma: “Todas as descrições de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos neste romance são exatos (accurate)”. É a primeira mentira.
Repetidamente falsifica ou desfigura personagens, lugares e eventos da história.
Promove o feminismo radical do programa neognóstico.
Desfigura incorretamente e injustamente o Cristianismo e a fé cristã tradicional sobre Deus, Jesus e a Bíblia.
Propaga uma atitude relativista e indiferente com relação à verdade e a religião.
É, na realidade, uma agressiva adulteração da verdade cristã. Como dizem os autores de “El fraude Da Vinci” citando Hitchcock: “O Código Da Vinci não é simplesmente outra revisão progressista. É nada menos que a acusação de que o Cristianismo foi uma fraude deliberada quase desde o princípio, de que a história de Jesus foi suprimida, e de que somente agora estamos aprendendo por fim a verdade de tudo isso” (p.38).
Gostaria de ressaltar alguns dos temas mais importantes analisados em “El fraude Da Vinci”.
“O Código Da Vinci” tem uma religião e esta é o gnosticismo.
No livro podemos encontrar numerosos temas gnósticos: a suspeita da tradição, desconfiança na autoridade, desgosto pelo dogma e pelos juízos objetivos da fé, o conflito do indivíduo contra o institucional, assim como a promessa do conhecimento secreto (pp. 46-47).
O gnosticismo é hoje – como foi desde o começo – (para usar as palavras de Carl A. Raschke, citado em “El fraude...”, p. 47): “uma religião de rebelião contra a religião convencional”. Por “gnósticos” e “gnosticismo” os primeiros Padres da Igreja não designavam tanto um sistema definido – de fato, entre os gnósticos dos primeiros séculos há notáveis discrepâncias e contradições – quanto o ou os sistemas que ultrapassam as fronteiras da Ortodoxia (tomando por esta última, a doutrina transmitida pelos Apóstolos e seus ulteriores desenvolvimentos homogêneos); o gnosticismo sempre se caracterizou por ser uma ruptura no desenvolvimento dogmático (como vemos em todas as heresias), ou bem uma incorporação de elementos espúrios à fé, ou ambas as coisas.
“O Código Da Vinci” se faz eco – assumindo-as plenamente – de afirmações gnósticas sobre a Igreja, sobre Cristo, sobre a “sacralidade feminina”. Dan Brown através de suas personagens sustenta com toda convicção que foi o imperador Constantino e seus sucessores aqueles que inventaram, por razões políticas, a “divindade” de Cristo e os mesmos que converteram o mundo do paganismo matriarcal ao Cristianismo patriarcal promovendo “uma campanha de propaganda que demonizou a sacralidade feminina” destruindo a adoração das deusas e assegurando-se que a religião moderna fosse de orientação masculina (cf. “O Código Da Vinci” p.124).
Na visão de Dan Brown – como na de muitos gnósticos – a divindade é uma realidade andrógina, ou seja, masculino-feminina, um “Poder bissexual”. Nisto “O Código Da Vinci” coincide e também depende de algumas fontes concretas como os livros de Margaret Starbird, “La mujer con el frasco de alabastro” (“The Woman with the Alabaster Jar”) e “La diosa en los evangelios” (“The Godess in the Gospels”), citados pelo mesmo Dan Brown. Eco disso se pode ver em afirmações como, por exemplo, a de que o retrato da Mona Lisa (La Gioconda) não é nem homem (varão) nem mulher (Brown propõe inclusive que é Leonardo vestido de mulher), ou de que Jesus ao fundar(?) sua religião, fê-lo casando-se com Maria Madalena, etc.
Todavia, o gnosticismo moderno tem certas incoerências com respeito ao gnosticismo antigo (o qual não é alheio mesmo ao sistema do gnosticismo). O neognosticismo tem uma de suas mais fortes manifestações no “feminismo radical”, que busca reivindicar os antigos escritos gnósticos (por exemplo, os Evangelhos gnósticos como o de Tomé, o de João, etc.) como se estas fossem fontes onde se conservou a “verdade” de Jesus Cristo que não alcançou a ser adulterada pela obra de Constantino; segundo seus defensores, em tais escritos haveria ficado assentado o “feminismo” do movimento fundado por Jesus (quem haveria pensado, sempre segundo esses autores, na Madalena como a futura cabeça de sua Igreja e não em Pedro, quem logo teria desbancado Madalena, fundando assim o mito Petrino). Essa idéia começou na realidade em 1896 com o escrito conhecido como “Pistis Sophia” ou “Os livros do Salvador” (The Books of the Savior), popularizando-se com as descobertas de alguns textos gnósticos em Nag Hammadi, Egito, em 1945. todavia, a verdade é que o gnosticismo tradicional não foi pró-feminino, senão que desprezou o feminino; esses autores – Dan Brown e suas fontes – tomam do gnosticismo o anticristão, mas reinterpretando a misoginia do gnosticismo tradicional à luz do moderno feminismo radical. Esta reinterpretação, na ideologia do gnosticismo, é válida como é válido mudar “a verdade” e “os fatos históricos” segundo os interesses pré-fixados.
Duas fontes que comportam grande parte da sabedoria gnóstica de “O Código Da Vinci” são “A revelação templária: Guardiões secretos da verdadeira identidade de Cristo” e “Santo Sangue, Santo Graal” . Estes livros e outros de análogo teor têm contribuído a colocar – para muitos cristãos – os evangelhos gnósticos ao mesmo nível dos quatro evangelhos da Bíblia cristã (ou inclusive em um nível superior). Não importa que tais obras (evangelhos gnósticos) tenham sido escritas várias décadas e inclusive alguns séculos mais tarde que os evangelhos canônicos, ou que tenham surgido em ambientes heréticos e que tenham sido combatidos desde os primeiros séculos pelos Padres da Igreja (como S. Irineu); tampouco importa, para os cristãos superficiais, que o cânon dos evangelhos recebidos pela Igreja estivesse já reconhecido pelos primeiros escritores eclesiásticos como Justino Mártir (por volta do ano 150), Tertuliano, Irineu, etc. Nem importa que os evangelhos canônicos já fossem reconhecidos como tais mais de 150 anos antes do Concilio de Nicéia e de Constantino…; esses autores igualmente valorizam qualquer hipótese aventuresca, tenha alguma face de verdade ou nenhum (como é nosso caso); trata-se de uma questão de ideologia.
Newman deixou escrito que “entrar profundamente na história equivale a abandonar o Protestantismo”. Com maior razão pode-se aplicar esse juízo a outros erros mais graves como os transmitidos pelos escritos neognósticos. O problema está em que para entrar profundamente na História há que ter amor pela verdade e gosto pela seriedade. Aqueles que pretendam formar suas mentes com uma cultura “fast-food”, esperando que os conhecimentos não exijam mais trabalho do que comprar e comer um hambúrguer e um pacote de batatas fritas, nunca abandonará seus erros, ainda que, tampouco poderá pensar mais seriamente de quanto digere.
O neo-gnosticismo também tem outra característica que é o fato de favorecer uma das vertentes dogmáticas do antigo gnosticismo. Os primeiros gnósticos – como se pode ler no Novo Testamento, nos escritos de S. João – negavam os traços humanos de Jesus Cristo (docetismo), fazendo dele um éon da divindade encarnado somente de modo aparente; começa deste modo a separação entre “Cristo” e “Jesus”: Cristo seria o éon divino que somente temporalmente habita no Jesus humano (de fato, sem verdadeira encarnação, pois para o gnosticismo a matéria é má) descendo sobre ele durante seu batismo e abandonando-lhe em sua Paixão (o escândalo da Cruz!). Cristo, portanto, é mais que Jesus e não se reduz a ele. Outra variante do gnosticismo fará de Cristo uma criatura inferior ao Pai ainda que superior aos demais homens (arianismo). O neo-gnosticismo retoma ambos desvios: a mais teológica, enfatizando a distinção entre Cristo e o Jesus histórico (Jesus é uma manifestação a mais do Cristo como Zaratustra, Maomé, Buda, etc.); e a mais vulgar, reduzindo Jesus a um plano puramente humano. “O Código Da Vinci” faz-se eco dessa desfiguração: para Dan Brown (através de suas personagens) Jesus não somente não é Deus, como também nunca pretendeu sê-lo, e os primeiros cristãos nunca pensaram ou pregaram a divindade de Cristo (o que estaria consignado, segundo ele, nos escritos gnósticos). Teria sido Constantino, e o Concilio de Nicéia habilmente manejado por ele, aqueles que “decidiram” por votação pela divindade de Cristo.
Mas essa história de Jesus se completa com a de Madalena.
“O Código Da Vinci” em sua versão em inglês dedica 25 páginas (pp. 266-261) a falar de Maria Madalena: sua identidade, sua suposta relação com Jesus (estaria casada com ele e haveria tido ao menos um filho), seu posto na Igreja primitiva, etc. Como muito bem fazem notar os autores de “El fraude Da Vinci”, para muitos cristãos (inclusive católicos) este é o primeiro encontro com Maria Madalena, o que torna compreensível sua perplexidade.
As afirmações falsas sobre Maria Madalena em “O Código Da Vinci” se podem sintetizar em quatro (cf. “El fraude...”, p. 75; ali estão indicadas as citações de “O Código Da Vinci”):
Maria Madalena seria o famoso Santo Graal das lendas medievais; daí que a famosa busca do Santo Graal não seja a busca do Cálice usado na Última Ceia de Jesus, senão da tumba de Maria Madalena.
A Igreja Católica empreendeu uma campanha suja contra Maria Madalena desde tempos muito antigos, caluniando seu nome, rotulando-a de prostituta com o intuito de apagar toda evidência de seu poder; essa campanha incluiu assassinatos e violências, seguindo até nossos dias.
Jesus e Maria Madalena estavam casados; este “fato” segundo “O Código Da Vinci” foi examinado detalhadamente e explorado interminavelmente por historiadores (cf. “O Código Da Vinci” p. 245, p. 249). Por suposto, não diz nem por quem, nem quando, nem onde consta. Jesus e Maria Madalena tiveram filhos; depois da morte de Jesus, Maria Madalena fugiu para a França perseguida pela Igreja Católica, ou seja, por Pedro.
Maria Madalena foi o primeiro grande apóstolo; seria de sangue real, da estirpe de Benjamin, etc.
Segundo Dan Brown, Jesus foi o primeiro feminista, por isso pensou em Maria Madalena como a cabeça de sua Igreja para depois de sua morte, e não em Pedro. Desta maneira, continuar-se-iam os costumes religiosos matriarcais e o culto a divindades femininas do antigo paganismo. Nisto Dan Brown se coloca na linha dos escritos esotéricos modernos que reivindicam a “divindade” (feminina) de Maria Madalena, patircularmente os romances de Margaret Starbird e os demais livros citados mais acima. Alguns meios de comunicação têm se feito eco dessa campanha pró-feminista radical que quer pôr a Madalena como modelo de reivindicação de sua causa. Em dezembro de 2003, um artigo do Newsweek (intitulado The Bible’s lost histories [“As histórias perdidas da Bíblia”]) dizia: “para os católicos, Maria Madalena emerge como um modelo para as mulheres que querem uma presença maior na Igreja depois da onda de escândalos por abusos sexuais” (“El fraude...” p.77 e nota 7).
Não vamos desgastar-nos aqui – como fazem meritoriamente os autores de “El fraude Da Vinci” – refutando escriturística e historicamente todas as falsidades sobre Madalena e sobre a falsa campanha que a Igreja teria feito contra ela (Maria Madalena é, de fato, uma das santas mais populares e queridas da Igreja e, contrariamente do que crê Dan Brown ou pretende fazer-nos crer, nos evangelhos se assinalam atuações notabilíssimas como o demonstra o fato de ser uma das primeiras testemunhas e anunciadoras da Ressurreição, ou o fato de ser mencionada com mais freqüência que alguns dos apóstolos como Judas Tadeu ou Bartolomeu). Brown e sua digna companhia desvairiam muito mais do que pode tolerar um estômago sadio criando uma Maria Madalena gnóstica, altamente feminista, pagã, símbolo do culto da “sacralidade feminina” presente na literatura gnóstico-moderna (que reivindica, entre outras coisas, os cultos idolátricos do paganismo e o posto das feiticeiras e das prostitutas sagradas da antigüidade pagã). De fato, a identificação de Maria Madalena com o Santo Graal ou Cálice da última Ceia responde à idéia esotérica de que o calice – como cavidade – é um símbolo sexual feminino, em contraposição ao sexo masculino representado por algum elemento penetrante. Em alguns ritos Wiccas modernos se introduz uma faca em um cálice como símbolo do ato sexual e da divindade masculino-feminina; assim pode-se ler livros do estilo de “O Código Da Vinci” como, por exemplo: “Quando Deus era mulher” (Whem God was a Woman) de Merlin Stone, ou “O Cálice e a Espada: nossa história, nosso futuro” (The Chalice and the Blade: our history, our future) de Riane Eisler.
Tudo isso está presente no interesse moderno pela religião Wicca, as práticas da Nova Era, o neopaganismo e o feminismo radical acompanhados de grande animosidade contra a Igreja Católica – percebida como “patriarcal”. Com muito fruto pode-se ler a respeito o livro de Philip G. Davis: “Diosas desmascaradas: el resurgir de la espiritualidad feminista neopagana” . Como disse esse autor, não se trata de inocentes divagações ou romances: os livros de deusas deveriam ser vistos como profissões de fé, e seus autores como evangelistas neopagãos” (p.87).
Muitos dos autores que são fontes de “O Código Da Vinci” sustentam que este papel que assinalam a Maria Madalena está afirmado nos evangelhos gnósticos. Além do que, como temos dito, estes são escritos ideológicos refutados como tais já nos primeiros séculos da Igreja, tampouco é tão assim como afirmam estes senhores. Na realidade, não há mais que um par de antigos textos gnósticos que devem ser lidos sob a lente do feminismo radical e tirados fora do contexto do pensamento gnóstico antigo para se lhes poder interpretar desta maneira. Recorde-se que o antigo gnosticismo desprezava o material – incluindo o sexo – espiritualizando-o de maneira indevida. O neo-gnosticismo, pelo contrário, carnaliza o que o antigo desencarnava. De todo modo, isso importa muito pouco a nossos autores, para os quais vale tudo o que sirva a sua ideologia e se permitem reinterpretar o que seja necessário para levar água a seu moinho. Assim, por exemplo, é curioso que o feminismo radical sendo contrário ao matrimônio institucional – prega o sexo livre – insista tanto no matrimônio de Cristo e Madalena quando isso lhe convém para rebaixar a figura de Jesus.
É também notório o desgosto que sente com relação à Virgem Maria. “The Templar Revelation” a descreve como “não-sexual e remota”; é percebida como débil, submissa, dócil, como a encarnação da subordinação. Assim Mary Daly (lamentavelmente uma ex-religiosa), feminista radical, descreve a Virgem Maria como uma deusa “domesticada”, sexualmente violada (em seu livro sugestivamente intitulado Gin-Ecologia: Gyn-Ecology ). Do mesmo teor Susan Haskins em Maria Madalena: mito e metafora” (Mary Magdalen: Mith and Metaphor), põe a Madalena como modelo revisado para a mulher atual. Por suposto, trata-se de “sua” Madalena, repensada segundo seu desejo.
Contudo, não se creia que estamos perante gente séria: são pessoas, em todo caso, com “problemas sérios”. Os argumentos que esses escritores manejam tem um toque de ridículo, já que a grosseria de que estão encharcados não admite que os qualifiquemos como humorísticos. Margaret Starbird, em seu livro, ao elaborar suas blasfêmas caricaturas do matrimônio entre Maria Madalena e Jesus Cristo, disse: “trabalhei sob a suposição de que onde há fumaça há fogo” (p. XXI; … o problema é quem fez o fogo? Sua própria TROPA!), portanto, tem que haver algo de verdade – arrazoa – porque se não fosse assim, como poderia se entender que filmes como “Godspell”, “Jesus Super Star” e “A última tentação de Cristo” falem de uma relação íntima entre Jesus e Maria Madalena.
Podemos tolerar que às vezes, de surpresa, nos assaltem; mas esta mulher parece querer arrancar-nos os olhos à mais plena luz do dia.
Já falamos um pouco de Cristo em “O Código Da Vinci”; permita-me acrescentar algumas coisas. Dan Brown afirma ser cristão “ainda que não tradicional”. Realmente há que ser muito cara-de-pau para sustentar essa afirmação. Seu romance afirma que Jesus Cristo foi meramente um homem ou pouco mais que isso. As principais afirmações sobre Jesus Cristo (p. 233 de “O Código Da Vinci”) estão resumidas pelos autores de “El fraude Da Vinci” (p. 109) no que segue:
A divindade de Jesus Cristo foi estabelecida – por votação, ganha por estreita margem – no Concílio de Nicéia, no ano de 325.
Antes dessa data nenhum discípulo cria que ele era mais que um profeta mortal e um grande homem.
O motivo pelo qual o Concílio de Nicéia votou a divindade de Cristo foi político – movido por Constantino (para Dan Brown, seria este o verdadeiro fundador do cristianismo) – com o propósito de solidificar o poder da Igreja Católica (que Dan Brown chama “o Vaticano” crendo – suponho – que assim era conhecida naquele tempo ou talvez agora).
Daí se segue que Jesus Cristo não é necessário para a salvação de ninguém.
Se isso quer dizer “ser cristão ainda que de uma maneira não tradicional” então Dan Brown nos ensinou algo realmente novo; nem mesmo Jesus Cristo o sabia.
Dan Brown não pode ser tão ignorante a ponto de desconhecer de maneira tão crassa a história do Ocidente, ainda que manifeste uma grande ignorância em muitos temas. Trata-se – obviamente – de adulterações ideológicas, feitas com mau gosto e péssima intenção. Nem o Concílio de Nicéia teve por objetivo decidir sobre a divindade de Cristo (ainda que nele se tenha condenado a Ário que rebaixava Cristo a criatura humana), nem teve que ver Constantino em suas decisões dogmáticas (muitas das quais não entendia então; e mais: até sua morte Constantino vacilou pelas influências arianas de alguns de seus conselheiros), nem é verdade que antes de Nicéia os discípulos de Jesus não houvessem sustentado sua divindade. Basta olhar os documentos antigos: aí estão os escritos de Inácio de Antioquia (117), Justino (165), Militão de Sardes (190), Irineu (200), Clemente de Alexandria (215), etc., ademais dos escritos do Novo Testamento com toda a crítica bíblica que atesta sua autenticidade e historicidade. Mas, isso interessa a Dan Brown?
Como em outras coisas também nesse tema Dan Brown comeu a alfafa das piores correntes anticristãs e anticatólicas; a respeito de Jesus, suas grandes fontes – além das já mencionadas – lançam raízes na corrente liberal do “Jesus Seminar”, fundada por Robert Fund (junto a John Dominic Crossan e Marcus Borg) os quais lançaram a idéia do Jesus mítico contra o Jesus histórico com a intenção de “libertar” Jesus das garras da Igreja Católica e do fundamentalismo protestante (ou seja, dos que crêem em Deus) com um método muito “científico”: avaliando a autenticidade dos ditos de Jesus mediante votações democráticas, usando bolinhas de cores (vermelho, rosa, cinza e negro) segundo o grau de probabilidade que o dito de Jesus em questão (seguro; provável; atribuível no fundo, ainda que não na forma; não procedente de Jesus). Analisa-se algo tão fundamental como a verdade de Jesus Cristo da mesma maneira que se vota em um concurso de beleza ou em uma competição de touros na fazenda (provavelmente este último seja mais sério).
Destarte, as idéias desses autores não são novas: 150 anos antes de Nicéia já haviam sido denunciados os gnósticos – os quais foram os primeiros a sustentá-las – por tratar-se de corromper a fé da Igreja nessas matérias; pode-se ler as cartas de Inácio de Antioquia, o De Praescriptione Haereticorum de Tertuliano, ou o Adversus Haereses de Irineu de Lyon.
Poderíamos seguir enunciando as mentiras de “O Código Da Vinci”. Não os chamo erros, pois haveria de supor demasiada boa fé em Dan Brown, sem que ele nos dê a menor pista de tê-la.
Já dissemos que ao começo de seu livro esclarece que contém “fatos comprovados” e em suas repetidas entrevistas (que podem ser lidas em “El fraude Da Vinci”) defende que ele investigou cuidadosamente esses temas. Ou é um néscio insubornável pelo senso comum, ou um caso patológico de mentiroso, ou ainda um tipo muito ruim.
Para ver sua seriedade basta recolher algumas das afirmações do livro e poderemos observar que estão cheias de falsidades sobre Constantino, as religiões pagãs, os Templários , o Priorado de Sião , arte (e ele afirma ter feito cursos na Espanha e que sua esposa é crítica de arte! Que charlatão!), a fé cristã, a Igreja Católica (“o Vaticano”, como a chama), o Opus Dei, as Catedrais, a maçonaria, as olimpíadas gregas , as cartas do Tarô , a Inquisição, a caça às bruxas , a Nova Era, as auréolas dos santos, a mitra dos Bispos, a data do nascimento de Cristo, sobre Leonardo Da Vinci – tem uma elevada ignorância de sua arte, carreira, trabalhos , história (não sabe nem o nome, pois usa Da Vinci como se fosse seu sobrenome, quando na verdade é somente seu lugar de origem), etc.
Admiro e fico muito agradecido a Carl Olson e Sandra Miesel por terem enfrentado o trabalho de refutar a imensa maioria dessas mentiras; somente o fato de relê-las em seu livro “El fraude Da Vinci” causou-me inúmeras dores de cabeça e estômago; não posso sequer imaginar o que padeceram eles para dedicar-se com paciência à sofrível leitura do livro original.
Permita-me resumir o que ficou dito afirmando que, sem fazer alardes de lucidez particular, podemos sustentar que Dan Brown é um néscio. Como os grandes néscios, critica toda autoridade, especialmente a da Igreja Católica, mas confia cegamente (e nos pede que façamos o mesmo!) em sua autoridade pessoal. Brown embarcou, com este livro (e alguns anteriores), em uma anticruzada contra a Igreja, a história humana e o senso comum. O fundo de seu argumento e da maioria de seus juízos históricos ou críticos representam uma massa tão grande de asneiras que não lhe teríamos dedicado mais de duas linhas, não fosse pelo fato de, como afirma acertadamente James Hitchcock, “ele influenciará muitas pessoas que nunca lêem livros sérios” e, por isso, as falsidades que “O Código Da Vinci” contém, com a cumplicidade dos meios de comunicação que se puseram a seu serviço , semearão dúvidas, confusões e apostasias.
Sei que há muitas pessoas (inclusive católicas) aos quais não agrada que lhes digam o que tem ou não que ler, e que preferem guiar-se por seus próprios juízos, ou pela moda, pela curiosidade, pela tentação ou pela superficialidade. Para lá com eles! Cumpro com minha parte, e se a leitura desse livro envenenar a alma de alguém, que recordem que alguém lhes avisou.
* Artigo extraído de Revista Diálogo In. FUENTES, Miguel Angel. “A fabulosa mentira Del Código Da Vinci”. Ediciones Del Verbo Encarnado: Argentina, dez 2004. Tradução do espanhol por Fúlvio de Moraes.
O livro ainda não foi traduzido ao espanhol (nem sei se há projeto de fazê-lo); portanto ao citar El fraude Da Vinci, leve-se em conta que faço referência à edicao em inglês. Como em linhas fundamentais apresentarei a crítica que esse livro faz a O Código Da Vinci, as referências a este último também serão da versão em inglês: DAN BROWN, The Da Vinci Code, Doubleday, Random House, Inc., New York 2003. todas as citações de “El fraude Da Vinci” e de “O Código Da Vinci” são traduções minhas.
* próprio da cultura argentina; seriam parecidas com as nossas chanchadas (nota do tradutor)
Essas criticas podem ser lidas no artigo de Socorro Estrada, Dan Brown y el código del êxito, publicado em Clarín digital do dia 23 de setembro 2004.
O livro de Olson e Miesel tem dez capítulos onde se trata: Gnosticismo: a religião de O Código; A Madalena: santa, pecadora ou deusa?; Cristo e O Código; Constantino, Paganismo e Nicéia; Mitos do Santo Graal; Os Templários reais; O mito Templário; A fraude do Priorado de Sião; Erros artísticos de O Código, Mais erros e pensamentos finais.
LYNN PINCKNETT and CLIVE PRINCE, The Templar Revelation: Secret Guardians of True Identity of Christ, New York, Simon and Schuster, 1998
as seguintes notas podem ser vistas no artigo de Pablo J. Ginés Rodriguez “La estafa del Código Da Vinci: Un best-seller mentiroso”, (http://www.mercaba.org/FICHAS/Persecucion/codigo_da_vinci.htm)
crê que foram eliminados pelo Papa Clemente V quem lançou suas cinzas ao Tiber; nem o fez este Papa (foi o rei francês, Felipe o Belo) nem pôde jogar sua cinzas ao Tiber por que esse rio está em Roma e Clemente V foi o primeiro Papa que governou a Igreja de Avignon, na França, etc.
Crê que o Priorado de Sião é uma associação secreta antiga que contou entre seus membros Leonardo Da Vinci, Isaac Newton, Victor Hugo; sendo que tal associação realmente existe, é francesa, mas está registrada sua existência recente desde de 1956, possivelmente originada por causa da II Guerra Mundial
O romancista diz que os cinco anéis das olimpíadas são um símbolo secreto da deusa; a realidade é que quando se desenharam as primeiras olimpíadas modernas o plano era começar com um e ir acrescentando um anel a cada edição, mas ficaram em cinco.
Crê que as cartas do tarô ensinam doutrina da deusa; mas, na realidade se inventaram para jogos de azar no séc. XV e não adquiriram conotações esotéricas até finais do séc. XVIII
Segundo os protagonistas do romance, “durante trezentos anos a Igreja queimou na fogueira a assombrosa cifra de cinco milhões de mulheres. Esta é uma cifra repetida na literatura neopagã, Wicca, Nova Era e feminista radical, ainda que em outras webs e textos de bruxaria atuais se fale de nove milhões. Os historiadores sérios calculam que entre os anos de 1400 e 1800, na Europa se executaram entre 30000 e 80000 pessoas por bruxaria. Nem todas foram queimadas. Nem todas eram mulheres. E a maioria não morreu por representantes oficiais da Igreja, nem sequer de católicos. A maioria de vítimas morreu na Alemanha, coincidindo com as guerras camponesas e protestantes dos séc. XVI e XVII. Quando uma região mudava de denominação, abundavam as acusações de bruxaria e a histeria coletiva.
Por exemplo, crê que a Mona Lisa é um ser andrógino, que o quadro “A Madona das Rochas” é uma tela (a personagem Sophie o aperta tanto a seu corpo que chega a dobrar) sendo que é uma pintura sobre madeira, de dois metros de altura. DAN BROWN crê que na pintura da Última Ceia de Leonardo não há cálice porque o cálice seria Madalena a quem identifica com quem na realidade é São João (não há cálice porque Leonardo pinta o relato de São João, no qual não se fala da Eucaristia), etc.