Queridos irmãos e irmãs:
Estamos celebrando a Missa votiva em honra da
Sagrada Eucaristia. A Sagrada Eucaristia, como
sabemos, é um Mistério. Dizemo-lo muitas vezes na
Aclamação Memorial depois da Consagração, dizemos:
“Este é o Mistério da Fé”.
É realmente o grande mistério da fé. E como é um
Mistério é uma realidade que está acima das coisas
que superam realmente a capacidade de nosso
entendimento, porque é um Mistério.
As nervuras que tem o Mistério da Eucaristia, são
nervuras profundas que permitem afundar de uma
maneira, diríamos arrepiante, a realidade
eucarística.
De tal modo que, inclusive às vezes, há palavras que
nunca as pensamos em profundidade. E palavras que
estão cheias de conteúdo misterioso
Hoje quero me referir a uma delas. É a palavra que
se diz na consagração do Sangue, quando o sacerdote
diz “Sangue que será derramado”. E eu reparei nesta
palavra estando em Segni. Porque ali estamos
acostumados a ter, por exemplo, a liturgia em rito
bizantino-ucraniano, aparece esta palavra. Em
francês, aparece esta palavra em inglês, em
italiano, sempre. Em todas as línguas e em todas as
liturgias. E então, ali me coloquei a tratar de
aprofundar um pouco.
Começamos, justamente, por Santo Tomás de Aquino.
Ele, por exemplo, distingue muito bem entre
“sacrifícios” e “oblações” e aquelas coisas que não
são nem sacrifícios nem oblações.
O diz ele, comentando o texto da Suma Teológica, e
diz assim: “Em primeiro lugar em relação aos
sacrifícios: tem-se que dizer que propriamente dizem
sacrifícios quando sobre as coisas oferecidas a Deus
se faz algo, como quando se parte o pão”. Por isso a
“fractio Panis” é a parte da
Missa que terá que prestar atenção. Terá que dar-se
conta do que é que ocorre.
“Quando comerdes, quando beberdes”, e isto segue
dizendo Santo Tomás, “diz o mesmo nome, posto que
sacrifício se diz quando o homem faz algo sagrado”.
“Sacrum facere”, fazer algo
sagrado. “Sacrum facere”,
sacrifício.
Segundo lugar, em relação às oblações. Quer dizer ao
oferecimento: “Mas se diz diretamente oblação quando
se oferece algo a Deus. Ainda quando nada se faz
sobre a coisa: como quando se diz oferece dinheiro
ou pães no altar, sobre o que não se faz nada. Por
onde todo sacrifício é oblação (há sacrifício,
necessariamente há oblação. Porque o sacrifício se
oferece a Deus. Mas há coisas que se oferecem que
não são sacrifícios). Por isso se diz: “Por onde
todo sacrifício é oblação, mas não ao reverso”. E no
comentário aos salmos ensina Santo Tomás o mesmo:
“Todo sacrifício é oblação, mas não toda oblação é
sacrifício”.
Por exemplo, as primícias, sejam da colheita, dos
animais do Antigo Testamento, são oblações porque
eram oferecidas a Deus (como se lê em Deuteronômio
26), mas não eram sacrifício porque não se fazia
nada sobre as primícias das colheitas ou das
primícias do gado.
Em terceiro lugar: “Há coisas que não são nem um,
nem o outro”.
Que coisas serão estes? Os dízimos. Propriamente
falando não são sacrifícios nem oblações. As
esmolas. Porque não se oferece diretamente a Deus a
não ser para as necessidades dos ministros do culto.
Isto “mais” que deve fazer-se à simples oblação para
que chegue a ser sacrifício é o que se conhece com o
nome de imolação.
Para que a oblação seja sacrifício, deve fazer sobre
ela algo “mais”, quer dizer deve fazer a imolação.
Entendida em sentido amplo como se lê pelos exemplos
que põe Santo Tomás: “obsición
(morte para os animais), consumação (para os
mantimentos), efusão (para os líquidos), divisão e
fração (para os sólidos), etc.
E a imolação pode fazer-se de modo diverso, conforme
a vítima esteja em espécie própria (como nestes
exemplos que acabamos de colocar) ou em espécie
alheia (como o está o Corpo e o Sangue do Jesus no
sacrifício Eucarístico, que está sob espécie alheia
não sob espécie própria a não ser sob espécie alheia
por que? Porque está sob a espécie de pão e vinho).
Portanto com respeito ao sacrifício incruento da Missa,
a revelação pública e oficial da Igreja, o que
pertence ao conteúdo da Sagrada Escritura, declara
que é imolação.
Isto se diz em várias partes: Lc., Mat., Mc.: “Este
é o cálice de meu Sangue que é derramado (essa é a
imolação) por vós”.
Equinomio
(Equinomio) diz o texto
grego, quer dizer imolação.
Ou seja, e aqui está o aspecto do Mistério, que o
Sangue de Cristo contido no Cálice Eucarístico, o
qual não se derrama porque nunca se viu que o
sacerdote passa com o Sangue de Cristo derramando-o
do Cálice, é Sangue derramado que não se derrama.
Como pode ser? É contradição. É derramado e não se
derrama.
“É derramado” Como pode ser? Se, de fato, não se
derrama, permanece no Cálice? O Sangue é derramado
porque é misteriosamente separado do Corpo. Por
razão das palavras “ex-fórum” o Sangue aparece
sacramentalmente separado do corpo e por isso se diz
que é Sangue derramado embora por via de
concomitância ou de companhia sabemos que está unido
porque é Cristo glorioso.
Por razão do Sacramento, por razão do “ex-borum”,
por razão da força das palavras aparece separado por
isso se diz derramado, porque é Sangue saído do
Corpo.
Por isso fundamentando-se na revelação, quer dizer
na Palavra de Deus, no que diz o texto sagrado, o
Concílio de Trento afirmou solenemente como dogma de
Fé definido: “Neste divino sacrifício se converte e
imola aquele mesmo Cristo que uma só vez se ofereceu
Ele mesmo cruentamente no altar da Cruz”.
E em outra parte o mesmo Concílio declara “que
instituiu uma Páscoa nova que era Ele mesmo, Cristo
é nossa Páscoa diz São Paulo, que tinha que ser
imolado pela Igreja por ministério dos sacerdotes
sob sinais visíveis”.
Ele mesmo tinha que ser imolado sob sinais visíveis
sob o sinal do pão e do vinho. Por isso ensinava
Tertuliano: “Cristo é imolado de novo” e Santo
Agostinho: “imolou-se uma só vez a si mesmo,
entretanto, no Sacramento se imola todos os dias”
E não é que se multiplique a imolação, mas sim se
multiplica a presença da única imolação cruenta que
é a imolação da Cruz. Multiplica-se de maneira
incruenta. São Pedro Crisólogo: “Este Cordeiro que
todos os dias e permanentemente é imolado para nosso
Banquete”
E na Prece Eucarística III diz: “Por cuja imolação”.
Quer dizer que tem que estar o mesmo Cristo, por
razão das palavras sob a espécie de pão e por razão
das palavras só o Corpo. E sob a espécie de vinho, e
por razão das palavras, só o Sangue.
Se segue que na Eucaristia está vigente uma
misteriosa separação do Sangue do Corpo. Ou seja: em
cada Santa Missa há uma imolação mística presente.
Por isso a Missa é verdadeiro e próprio sacrifício
como insígnia o Concílio de Trento.
Além disso, a imolação mística presente é memorial
(por isso depois da Consagração se diz: “o memorial
de sua paixão”, “o memorial”, “o memorial”. Sempre
se usa a palavra memorial) é memorial da imolação
cruenta passada no calvário e assim é a Missa
sacrifício relativo ao único sacrifício absoluto da
Cruz. Portanto, em cada Missa, Cristo incruentamente
se imola. Peçamos, por meio da Virgem, a graça de ir
compreendendo cada vez mais o que pertence à
essência do Ofício sacerdotal que é o oferecimento
do sacrifício e compreender cada vez mais o que é o
sacrifício, o Santo Sacrifício da Missa.