<%@ Page Language="C#" Debug="true"%> IVE Brasil- Homilias do Pe. Buela
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O passado do Padre Guilherme Costantini

 

Homília pronunciado pelo P. Carlos M. Buela
com ocasião da primeira Missa do P. Diego Grisalho

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Neste dia queria deixar ao novo sacerdote como uma lembrança para toda sua vida o que poderíamos chamar o Pai Nosso sacerdotal.

Todos os dias rezamos muitas vezes o Pai Nosso, e certamente que o rezamos em todas as missas. Entretanto, muitas vezes não lhe tiramos todos os proveitos que lhe deveríamos e poderíamos tirar.

Como bem sabemos, esta oração nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo. É uma oração que saiu de seus lábios e de seu coração. Portanto é uma oração não somente perfeita, sim perfeitíssima. Contém tudo que devemos pedir. Esta na ordem na qual se deve pedir: o mais importante, o que lhe segue, o que lhe segue e o menos importante. De maneira tal que constitui uma norma, uma regra, uma medida para por ordem em nossos desejos, em nossos sentimentos e em nossos afetos.

Tem um pórtico e sete petições. O pórtico é o que se tem que manter durante toda a oração: "Pai nosso que está nos céus, santificado seja seu nome". "Pai nosso que está nos céus, venha a nós Seu reino". "Pai nosso que está nos céus, faça-se Sua vontade". "Pai nosso que está nos céus, nos dê hoje nosso pão".

Por quê? Porque esse pórtico, esse início, Nosso Pai, é o que nos dá confiança e força e nos faz recordar a Quem estamos pedindo e o poder que tem Aquele a Quem pedimos para que possa nos dar o que lhe estamos pedindo. Porque pensar que Deus é nosso Pai excita nossa confiança Nele e dizendo que "que está nos Céus" recordamos que tem poder para nos dar tudo o que seja necessário  tal de que seja para nosso bem. Por isso é que o sacerdote é o homem do Pai Nosso.

E por razões de retórica, pelo fato de que às vezes terá que lhe por um pouco de suspense. Vou começar pela última petição: "Livra-nos do mal".

 

I

 

Como se disséssemos "Pai nosso que está nos céus, livra-nos do mal"

 

O Sacerdote deve mais que ninguém na oração, com sua penitência, com seus sacrifícios, pedir a Deus que nos libere do mal e livre do mal aos fiéis encomendados a ele. Porque como bem diz São Paulo: Não é nossa luta contra a carne e o sangue (Ef 6,12), quer dizer contra aquela pessoa, tal ou qual. Nossa luta é contra o mau espírito, contra o diabo que procura fazer sempre o mesmo: contra os Espíritos do Mal que estão nas alturas (Ef 6,12). Como pai da mentira que é, busca nos enganar para nos apartar do caminho do bem. Como homicida que é, busca que deixemos de trabalhar a favor da vida e trabalhemos a favor da morte, que é como trabalhar a favor dele, mas nesta cultura em que estamos submersos, que é uma cultura da morte.

 

Por isso o coração sacerdotal, se for verdadeiramente sacerdotal, não pode deixar de lutar contra o mal. O dia que o sacerdote deixa de lutar contra o mal, primeiro começa a ser um sacerdote pastelero e depois começa a deixar de ser sacerdote. O ser sacerdote não é jogar à mancha com o diabo, "basta, peço não jogo mais, não me incomode". É uma luta que começou com o começo do homem sobre a terra e seguirá até o fim da vida do homem sobre a terra. Há uma inimizade, uma guerra que não é um mal entendido, não é "bom, pode ser o modo, a maneira, o estilo". Essas são desculpas, há uma oposição radical e total entre o que é de Deus e o que é do diabo. Não há negociação possível. Não é uma coisa que nos sentamos em uma mesa a negociar. Alguns o pretendem fazer e assim vai. E se na luta um caísse, mais vale cair com glória que viver com ignomínia.

 

Finalmente, pouco importamos nós na luta, mas sim o que importa é nossa bandeira, o que defendemos e o que queremos defender, nossos ideais sacerdotais. Por isso como disse aquele "Se em combate vêem cair a meu cavalo e a minha bandeira, primeiro levantem minha bandeira"

 

II

 

"Pai nosso que está nos céus, não nos deixe cair na tentação".

 

O sacerdote é um homem assediado de tentações, centenas de tentações, milhares de tentações. Assim está escrito, está revelado. Aparece no livro dos Provérbios meu Filho se quer te dar ao serviço de Deus prepara sua alma à tentação (2,1). Entender outra coisa em uma coisa tola, estúpida. que se dá ao serviço de Deus tem que preparar sua alma contra a tentação e tentações contra todas as virtudes teologais (fé, esperança, caridade), contra todas as virtudes morais infusas, contra tudo, porque o diabo procura desesperadamente apartar ao sacerdote de seu caminho, porque sabe que lhe está roubando o que o quer, que são as almas. Por isso o incomodava tanto ao Santo Cura de Ars, do qual chegou a dizer que o buscava porque lhe tinha roubado 80.000 almas.

 

Notemos que nosso Senhor não diz que peçamos não ter tentações, isso é impossível. Enquanto vivamos neste mundo todos - sacerdotes e leigos - temos que ter tentações. E não há que ter medo, o que lhe pedimos é não cair nas tentações, e não consenti-las, as rechaçar com força, com energia, fazendo "agir contra".

 

III

 

Na quinta petição lhe pedimos que nos além do pecado, porque lhe pedimos que nos perdoe. "Pai nosso que está nos céus, nos perdoe, assim como nós perdoamos a nossos devedores”.

 

No caso do sacerdote, esse ‘perdoa-nos’ não é somente pedir o perdão pessoal dos próprios pecados, que o temos, por isso temos que nos confessar, por isso em cada missa rezamos o Eu Pecador ao começo; O sacerdote não pede somente por si, sim que pede por todos. A mim dá alegria agora que em tantas oportunidades o Papa há pedido perdão, nos jornais "OH!!! O Papa pediu perdão" e está pedindo perdão todos os dias. Nós cristãos, todos os dias pedimos perdão. Que novidade é pedir perdão? Novidade seria não pedir perdão.

 

Neste sentido o sacerdote é o homem do ‘Kyrie eleison’, ‘Tenha piedade de nós’. Pede por todo o povo. Isso o fazemos habitualmente na Santa Missa e também na Liturgia das Horas mais ainda espontaneamente na oração que brota de nosso coração. Como diz um celebre novelista falando de um sacerdote santo que à manhã dizia ‘Kyrie eleison’ e ao meio dia lhe escutava dizer ‘Kyrie eleison’, e à tarde e de noite ‘o Kyrie eleison’, tenha piedade de todos nós que somos uma humanidade pecadora e que mereceríamos castigo por tantos pecados se não fosse pela misericórdia de Deus, que está nos esperando, que nos tem paciência.

 

O sacerdote é justamente o homem que ora muito por seu povo. Se não tivéssemos nós esses pára-raios da ira divina, O que seria de nossa vida? Se não tivéssemos nós a aquele que tem poder dado por Cristo de nos absolver de nossos pecados. O que seria de nossa vida?

 

E estes são quão meios que indiretamente nos conduzem ao fim, e pedimos no Pai Nosso que se apartem os obstáculos: o mal, a tentação e o pecado. Há outros meios que não são indiretos, mas sim são diretos e é o que pertence à quarta e terceira petição.

 

IV

 

"Pai Nosso que está nos céus, nos dê hoje nosso pão de cada dia". Estamos pedindo que Deus nos permita nos aproximar da mesa da Eucaristia, que é o pão substancial, o pão dos anjos, o pão que nos dá a vida eterna. E ao pedir o sacramento da Eucaristia, estamos pedindo junto com o sacramento da Eucaristia todos os outros sacramentos, que nos são necessários. A Confissão para receber dignamente a Eucaristia se tivermos tido a desgraça de cair em pecado grave.

 

Ao pedir nosso pão – diz Santo Agostinho – pedimos também todas as coisas. Todas as coisas que nos são necessárias, ainda as corporais. Pedimos também o pão da mesa, por isso recordaram as pessoas maiores – a mim me ensinou isso minha avó – quando caía um pedaço de pão ao piso, terei que levantá-lo, beijá-lo e o podia comer ou não comer, mas terei que beijá-lo porque era o pão que se pediu a Deus, e deixá-lo no piso ou não respeitá-lo seria não respeitar ao mesmo Deus a quem pediu o pão de cada dia.

 

E se hoje em dia estivermos como estamos, com todas as dificuldades econômicas que há, aqui e em outras partes muito piores, é porque os povos não pedem a Deus o pão de cada dia. Acreditam que o vão obter somente com o esforço de seu trabalho, com a capacidade de sua inteligência, porque se desenvolveram novas técnicas, porque já se chegou à Lua, etc.. e assim estamos.

 

Que formoso seria se nossas famílias tratassem de participar da Missa todos os dias se for possível, receber todos os dias o pão substancial da Eucaristia, e pedir todas as coisas necessárias para a vida e para a salvação.

 

E por que cada dia? Diz muito bem Santo Agostinho: "Para pedi-lo igualmente amanhã e corrigir nossa cobiça", porque se o pedíssemos tudo junto para uma só vez depois nos aferraríamos de maneira desordenada a esses bens. Por isso que também Deus permite os problemas econômicos para corrigir nossa cobiça, nossa avareza, nosso desejo desordenado de bens materiais, porque muitas vezes colocamos neles nosso coração em forma desordenada.

 

V

 

Que coisa pedimos na terceira petição? "Pai Nosso que está nos céus, faça-se tua vontade assim na terra como no céu"

 

Se a Eucaristia é realmente o ato principal do sacerdote, se a Eucaristia for o que o caracteriza singularmente, o que faz que seja absolutamente distinto de todos os demais porque lhe dá o poder de transubstanciar o pão e o vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, porque perpetua o sacrifício de Cristo na cruz na Santa Missa, porque obra ‘in Persona Christi’; pois outra característica que tem que ser plenamente sacerdotal é o querer fazer sempre e unicamente a vontade de Deus que é quão único conta nesta vida.

 

Nós podemos ter nossos planos, nossos projetos, mas o que importa nossos planos e nossos projetos? O que importa são os planos e projetos de Deus. A gente pode ter um plano de trabalhar até os 70 anos e resulta que depois não encontra trabalho. O sacerdote pode ter um plano "eu vou converter esta paróquia, toda a gente vai se por devota, fiel, vai vir a Missa, vai receber os sacramentos" e depois resulta que o rechaçam. Um missionário vai a um país longínquo, deixando casa, família, às vezes a mesma língua, a cultura e resulta que parece que não produz fruto. O que importa é fazer a vontade de Deus sempre e em todo lugar.

 

E neste sentido a vontade de Deus deve ser sempre para o sacerdote "invariavelmente, adorável"(1) . Não é adorável em algum momento quando as coisas que nos ocorrem nos resultam agradáveis, mas sim sempre a vontade de Deus é adorável. Por isso que o fazer a vontade de Deus, de maneira especial, no cumprimento dos mandamentos de sua Santa lei é uma preocupação essencial no sacerdote que é pastor das ovelhas. Deve conseguir ensinar que seus paroquianos realmente respeitem a lei de Deus, porque ali vão encontrar a felicidade ainda neste mundo e no outro nada menos que a vida eterna.

 

VI

 

Fica algo mais importante ainda, são as coisas que se referem diretamente ao fim da vida do homem, às coisas que não são meios somente, mas sim são o fim mesmo.

 

A segunda petição é a que pedimos "Pai nosso que está nos céus, venha a nós teu Reino". Formosíssima petição, que o Reino de Deus venha a nós. Esse Reino de Deus, embora tenham matizes diversos em algum aspecto, identifica-se com a Igreja. Esse Reino de Deus que certamente se identifica com Jesus Cristo, é como pedir, que Jesus Cristo venha a nós.

 

Neste sentido o sacerdote tem que trabalhar em primeiro lugar para que Jesus Cristo de verdade viva em sua alma, para que Jesus Cristo viva nas famílias de sua paróquia, nos pobres de sua paróquia, nos doentes de sua paróquia, nos meninos de sua paróquia e nos trabalhadores de sua paróquia. Muitas vezes o âmbito de ação se estende muito além da paróquia, porque Jesus Cristo tem que reinar pela verdade em nossas inteligências e pela caridade em nossas vontades. Dessa maneira aprendemos a amar a nós mesmos em Deus, dessa maneira excitamos em nós o desejo de seu Reino, dessa forma tratamos de cumprir o que nos ensinou, buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça e tudo mais vos será dado em acréscimo (MT 6,33).

 

De maneira particular se a família for a Igreja doméstica, é a Igreja em miniatura, é a Igreja pequena, a família é o Reino doméstico, a família é o Reino em miniatura, à família tem que chegar Jesus Cristo e Jesus Cristo tem que viver nela em plenitude.

 

E aqui em São Luis que por graça de Deus há tantas famílias que vêm já de tantos anos, mas que são famílias jovens ainda, que Deus lhes concedeu tantos filhos. Como têm que seguir trabalhando incansavelmente, tendo bem claro que hoje para ser fiel discípulo do Jesus Cristo terá que remar, nadar contra a corrente. Justamente uma das coisas que mais se ataca hoje em dia é a santidade do santuário familiar. E não terá que claudicar, não terá que render-se, terá que saber que quando em Nosso Pai pedimos "venha a nós seu Reino", estamos pedindo isso. E embora o mal aparentemente siga crescendo cada vez mais, não importa, sempre está a graça de Deus e deveríamos dizer, como estamos acostumados a recordar: "Estamos rodeados por toda parte, não os deixemos escapar" Não como fizeram alguns em outras épocas que chegaram a dizer "mais vale os indecentes que mortos", porque se sentiam rodeados por toda parte. Esses claudicaram.  

 

VII

 

E a primeira petição é a cúpula de todas as petições e nesse termômetro da santidade cristã é o mais importante : "Pai Nosso que está nos céus, santificado seja seu Nome".

 

É o primeiro que pedimos respeito a nosso fim. A Ele deve tender nosso coração e nossa alma de duas maneiras: desejando sua glória, desejando que seu nome seja santificado por todos os homens, que o reconheçam como tal, que a glória de Deus se propague entre os homens, que reconheçamos sua santidade, que glorifiquemos a Deus, que possamos dizer como Santo Inácio do Loyola, tudo para a maior glória de Deus (2) , que possamos dizer como São João da Cruz no topo do monte da perfeição: "Só mora neste monte honra e glória de Deus" (3)

 

E neste dia de maneira especial, já que o escutamos no Evangelho, que possamos dizer sempre e em primeiro lugar, como a Santíssima Virgem no Magnificat: Minha alma canta a grandeza de Deus (Lc 1,46). O sacerdote com seu coração cheio de fogo do amor de Deus, deve lutar com toda a força de sua alma, com todas as fibras de seu corpo a procurar sempre e em primeiro lugar a glória de Deus, porque Deus deve "ser o primeiro servido" (4). E o sacerdote que se esquece de servir em primeiro lugar, com força, com energia, entregando todo seu ser na busca da união com o Ser Supremo, por mais que diga depois que está procurando o bem dos homens, está procurando coisas sem valores, porque o bem do homem é que o homem seja de Deus. Como dizia Santo Irineu "a glória de Deus é que o homem viva, e a glória do homem é conhecer Deus".(5)

 

Peçamos nesta Santa Missa então para o P. Diego Grisalho, para todos os sacerdotes, a graça de que se faça carne em nós isto que dou em chamar o Pai Nosso sacerdotal. De tal maneira que sempre busquemos em primeiro lugar a glória de Deus, junto com a glória de Deus, a extensão de seu Reino sobre a terra, quer dizer o bem dos homens, e logo que saibamos por eficazmente o meios para alcançar a Deus. Os meios diretos como fazer sempre sua Vontade e receber os Sacramentos; e os meios indiretos como o lutar contra o pecado, as tentações e o mal. Que a Santíssima Virgem conceda a este jovem sacerdote um fecundo ministério, que suas mãos ao chegar a ter mais idade estejam repletas de boas obras, que seja capaz de formar Santos e se for necessário que esteja disposto a entregar seu sangue para ser fiel a Deus. Graça que certamente a Santíssima Virgem lhe alcançará se for necessário.

 

Pe. Carlos M. Buela, IVE  

 

 1 São Francisco de Sales chamado no Diretório de Exercícios Espirituais, 40
 2 Cf. Livro dos Exercícios Espirituais 16
 3 Monte de Perfeição, Obras Completas (Madrid 1982) 73.
 4 Santa Juana de Arco, Dictum
 5 Adversus Haereses IV, 20, 7

 

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