Neste dia queria
deixar ao novo sacerdote como uma lembrança para
toda sua vida o que poderíamos chamar o Pai Nosso
sacerdotal.
Todos os dias rezamos
muitas vezes o Pai Nosso, e certamente que o rezamos
em todas as missas. Entretanto, muitas vezes não lhe
tiramos todos os proveitos que lhe deveríamos e
poderíamos tirar.
Como bem sabemos,
esta oração nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo. É
uma oração que saiu de seus lábios e de seu coração.
Portanto é uma oração não somente perfeita, sim
perfeitíssima. Contém tudo que devemos pedir. Esta
na ordem na qual se deve pedir: o mais importante, o
que lhe segue, o que lhe segue e o menos importante.
De maneira tal que constitui uma norma, uma regra,
uma medida para por ordem em nossos desejos, em
nossos sentimentos e em nossos afetos.
Tem um pórtico e sete
petições. O pórtico é o que se tem que manter
durante toda a oração: "Pai nosso que está nos céus,
santificado seja seu nome". "Pai nosso que está nos
céus, venha a nós Seu reino". "Pai nosso que está
nos céus, faça-se Sua vontade". "Pai nosso que está
nos céus, nos dê hoje nosso pão".
Por quê? Porque esse
pórtico, esse início, Nosso Pai, é o que nos dá
confiança e força e nos faz recordar a Quem estamos
pedindo e o poder que tem Aquele a Quem pedimos para
que possa nos dar o que lhe estamos pedindo. Porque
pensar que Deus é nosso Pai excita nossa confiança
Nele e dizendo que "que está nos Céus" recordamos
que tem poder para nos dar tudo o que seja
necessário tal de que seja para nosso bem. Por isso
é que o sacerdote é o homem do Pai Nosso.
E por razões de
retórica, pelo fato de que às vezes terá que lhe por
um pouco de suspense. Vou começar pela última
petição: "Livra-nos do mal".
I
Como se disséssemos
"Pai nosso que está nos céus, livra-nos do mal"
O Sacerdote deve mais
que ninguém na oração, com sua penitência, com seus
sacrifícios, pedir a Deus que nos libere do mal e
livre do mal aos fiéis encomendados a ele. Porque
como bem diz São Paulo: Não é nossa luta contra a
carne e o sangue (Ef 6,12), quer dizer contra
aquela pessoa, tal ou qual. Nossa luta é contra o
mau espírito, contra o diabo que procura fazer
sempre o mesmo: contra os Espíritos do Mal que
estão nas alturas (Ef 6,12). Como pai da mentira
que é, busca nos enganar para nos apartar do caminho
do bem. Como homicida que é, busca que deixemos de
trabalhar a favor da vida e trabalhemos a favor da
morte, que é como trabalhar a favor dele, mas nesta
cultura em que estamos submersos, que é uma cultura
da morte.
Por isso o coração
sacerdotal, se for verdadeiramente sacerdotal, não
pode deixar de lutar contra o mal. O dia que o
sacerdote deixa de lutar contra o mal, primeiro
começa a ser um sacerdote pastelero e depois começa
a deixar de ser sacerdote. O ser sacerdote não é
jogar à mancha com o diabo, "basta, peço não jogo
mais, não me incomode". É uma luta que começou com o
começo do homem sobre a terra e seguirá até o fim da
vida do homem sobre a terra. Há uma inimizade, uma
guerra que não é um mal entendido, não é "bom, pode
ser o modo, a maneira, o estilo". Essas são
desculpas, há uma oposição radical e total entre o
que é de Deus e o que é do diabo. Não há negociação
possível. Não é uma coisa que nos sentamos em uma
mesa a negociar. Alguns o pretendem fazer e assim
vai. E se na luta um caísse, mais vale cair com
glória que viver com ignomínia.
Finalmente, pouco
importamos nós na luta, mas sim o que importa é
nossa bandeira, o que defendemos e o que queremos
defender, nossos ideais sacerdotais. Por isso como
disse aquele "Se em combate vêem cair a meu cavalo e
a minha bandeira, primeiro levantem minha bandeira"
II
"Pai nosso que está
nos céus, não nos deixe cair na tentação".
O sacerdote é um
homem assediado de tentações, centenas de tentações,
milhares de tentações. Assim está escrito, está
revelado. Aparece no livro dos Provérbios meu
Filho se quer te dar ao serviço de Deus prepara sua
alma à tentação (2,1). Entender outra coisa em
uma coisa tola, estúpida. que se dá ao serviço de
Deus tem que preparar sua alma contra a tentação e
tentações contra todas as virtudes teologais (fé,
esperança, caridade), contra todas as virtudes
morais infusas, contra tudo, porque o diabo procura
desesperadamente apartar ao sacerdote de seu
caminho, porque sabe que lhe está roubando o que o
quer, que são as almas. Por isso o incomodava tanto
ao Santo Cura de Ars, do qual chegou a dizer que o
buscava porque lhe tinha roubado 80.000 almas.
Notemos que nosso
Senhor não diz que peçamos não ter tentações, isso é
impossível. Enquanto vivamos neste mundo todos -
sacerdotes e leigos - temos que ter tentações. E não
há que ter medo, o que lhe pedimos é não cair nas
tentações, e não consenti-las, as rechaçar com
força, com energia, fazendo "agir contra".
III
Na quinta petição lhe
pedimos que nos além do pecado, porque lhe pedimos
que nos perdoe. "Pai nosso que está nos céus, nos
perdoe, assim como nós perdoamos a nossos
devedores”.
No caso do sacerdote,
esse ‘perdoa-nos’ não é somente pedir o perdão
pessoal dos próprios pecados, que o temos, por isso
temos que nos confessar, por isso em cada missa
rezamos o Eu Pecador ao começo; O sacerdote não pede
somente por si, sim que pede por todos. A mim dá
alegria agora que em tantas oportunidades o Papa há
pedido perdão, nos jornais "OH!!! O Papa pediu
perdão" e está pedindo perdão todos os dias. Nós
cristãos, todos os dias pedimos perdão. Que novidade
é pedir perdão? Novidade seria não pedir perdão.
Neste sentido o
sacerdote é o homem do ‘Kyrie eleison’, ‘Tenha
piedade de nós’. Pede por todo o povo. Isso o
fazemos habitualmente na Santa Missa e também na
Liturgia das Horas mais ainda espontaneamente na
oração que brota de nosso coração. Como diz um
celebre novelista falando de um sacerdote santo que
à manhã dizia ‘Kyrie eleison’ e ao meio dia lhe
escutava dizer ‘Kyrie eleison’, e à tarde e de noite
‘o Kyrie eleison’, tenha piedade de todos nós que
somos uma humanidade pecadora e que mereceríamos
castigo por tantos pecados se não fosse pela
misericórdia de Deus, que está nos esperando, que
nos tem paciência.
O sacerdote é
justamente o homem que ora muito por seu povo. Se
não tivéssemos nós esses pára-raios da ira divina, O
que seria de nossa vida? Se não tivéssemos nós a
aquele que tem poder dado por Cristo de nos absolver
de nossos pecados. O que seria de nossa vida?
E estes são quão
meios que indiretamente nos conduzem ao fim, e
pedimos no Pai Nosso que se apartem os obstáculos: o
mal, a tentação e o pecado. Há outros meios que não
são indiretos, mas sim são diretos e é o que
pertence à quarta e terceira petição.
IV
"Pai Nosso que está
nos céus, nos dê hoje nosso pão de cada dia".
Estamos pedindo que Deus nos permita nos aproximar
da mesa da Eucaristia, que é o pão substancial, o
pão dos anjos, o pão que nos dá a vida eterna. E ao
pedir o sacramento da Eucaristia, estamos pedindo
junto com o sacramento da Eucaristia todos os outros
sacramentos, que nos são necessários. A Confissão
para receber dignamente a Eucaristia se tivermos
tido a desgraça de cair em pecado grave.
Ao pedir nosso pão –
diz Santo Agostinho – pedimos também todas as
coisas. Todas as coisas que nos são necessárias,
ainda as corporais. Pedimos também o pão da mesa,
por isso recordaram as pessoas maiores – a mim me
ensinou isso minha avó – quando caía um pedaço de
pão ao piso, terei que levantá-lo, beijá-lo e o
podia comer ou não comer, mas terei que beijá-lo
porque era o pão que se pediu a Deus, e deixá-lo no
piso ou não respeitá-lo seria não respeitar ao mesmo
Deus a quem pediu o pão de cada dia.
E se hoje em dia
estivermos como estamos, com todas as dificuldades
econômicas que há, aqui e em outras partes muito
piores, é porque os povos não pedem a Deus o pão de
cada dia. Acreditam que o vão obter somente com o
esforço de seu trabalho, com a capacidade de sua
inteligência, porque se desenvolveram novas
técnicas, porque já se chegou à Lua, etc.. e assim
estamos.
Que formoso seria se
nossas famílias tratassem de participar da Missa
todos os dias se for possível, receber todos os dias
o pão substancial da Eucaristia, e pedir todas as
coisas necessárias para a vida e para a salvação.
E por que cada dia?
Diz muito bem Santo Agostinho: "Para pedi-lo
igualmente amanhã e corrigir nossa cobiça", porque
se o pedíssemos tudo junto para uma só vez depois
nos aferraríamos de maneira desordenada a esses
bens. Por isso que também Deus permite os problemas
econômicos para corrigir nossa cobiça, nossa
avareza, nosso desejo desordenado de bens materiais,
porque muitas vezes colocamos neles nosso coração em
forma desordenada.
V
Que coisa pedimos na
terceira petição? "Pai Nosso que está nos céus,
faça-se tua vontade assim na terra como no céu"
Se a Eucaristia é
realmente o ato principal do sacerdote, se a
Eucaristia for o que o caracteriza singularmente, o
que faz que seja absolutamente distinto de todos os
demais porque lhe dá o poder de transubstanciar o
pão e o vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, porque
perpetua o sacrifício de Cristo na cruz na Santa
Missa, porque obra ‘in Persona Christi’; pois outra
característica que tem que ser plenamente sacerdotal
é o querer fazer sempre e unicamente a vontade de
Deus que é quão único conta nesta vida.
Nós podemos ter
nossos planos, nossos projetos, mas o que importa
nossos planos e nossos projetos? O que importa são
os planos e projetos de Deus. A gente pode ter um
plano de trabalhar até os 70 anos e resulta que
depois não encontra trabalho. O sacerdote pode ter
um plano "eu vou converter esta paróquia, toda a
gente vai se por devota, fiel, vai vir a Missa, vai
receber os sacramentos" e depois resulta que o
rechaçam. Um missionário vai a um país longínquo,
deixando casa, família, às vezes a mesma língua, a
cultura e resulta que parece que não produz fruto. O
que importa é fazer a vontade de Deus sempre e em
todo lugar.
E neste sentido a
vontade de Deus deve ser sempre para o sacerdote
"invariavelmente, adorável"(1) . Não é adorável em
algum momento quando as coisas que nos ocorrem nos
resultam agradáveis, mas sim sempre a vontade de
Deus é adorável. Por isso que o fazer a vontade de
Deus, de maneira especial, no cumprimento dos
mandamentos de sua Santa lei é uma preocupação
essencial no sacerdote que é pastor das ovelhas.
Deve conseguir ensinar que seus paroquianos
realmente respeitem a lei de Deus, porque ali vão
encontrar a felicidade ainda neste mundo e no outro
nada menos que a vida eterna.
VI
Fica algo mais
importante ainda, são as coisas que se referem
diretamente ao fim da vida do homem, às coisas que
não são meios somente, mas sim são o fim mesmo.
A segunda petição é a
que pedimos "Pai nosso que está nos céus, venha a
nós teu Reino". Formosíssima petição, que o Reino de
Deus venha a nós. Esse Reino de Deus, embora tenham
matizes diversos em algum aspecto, identifica-se com
a Igreja. Esse Reino de Deus que certamente se
identifica com Jesus Cristo, é como pedir, que Jesus
Cristo venha a nós.
Neste sentido o
sacerdote tem que trabalhar em primeiro lugar para
que Jesus Cristo de verdade viva em sua alma, para
que Jesus Cristo viva nas famílias de sua paróquia,
nos pobres de sua paróquia, nos doentes de sua
paróquia, nos meninos de sua paróquia e nos
trabalhadores de sua paróquia. Muitas vezes o âmbito
de ação se estende muito além da paróquia, porque
Jesus Cristo tem que reinar pela verdade em nossas
inteligências e pela caridade em nossas vontades.
Dessa maneira aprendemos a amar a nós mesmos em
Deus, dessa maneira excitamos em nós o desejo de seu
Reino, dessa forma tratamos de cumprir o que nos
ensinou, buscai primeiro o reino de Deus e sua
justiça e tudo mais vos será dado em acréscimo
(MT 6,33).
De maneira particular
se a família for a Igreja doméstica, é a Igreja em
miniatura, é a Igreja pequena, a família é o Reino
doméstico, a família é o Reino em miniatura, à
família tem que chegar Jesus Cristo e Jesus Cristo
tem que viver nela em plenitude.
E aqui em São Luis
que por graça de Deus há tantas famílias que vêm já
de tantos anos, mas que são famílias jovens ainda,
que Deus lhes concedeu tantos filhos. Como têm que
seguir trabalhando incansavelmente, tendo bem claro
que hoje para ser fiel discípulo do Jesus Cristo
terá que remar, nadar contra a corrente. Justamente
uma das coisas que mais se ataca hoje em dia é a
santidade do santuário familiar. E não terá que
claudicar, não terá que render-se, terá que saber
que quando em Nosso Pai pedimos "venha a nós seu
Reino", estamos pedindo isso. E embora o mal
aparentemente siga crescendo cada vez mais, não
importa, sempre está a graça de Deus e deveríamos
dizer, como estamos acostumados a recordar: "Estamos
rodeados por toda parte, não os deixemos escapar"
Não como fizeram alguns em outras épocas que
chegaram a dizer "mais vale os indecentes que
mortos", porque se sentiam rodeados por toda parte.
Esses claudicaram.
VII
E a primeira petição
é a cúpula de todas as petições e nesse termômetro
da santidade cristã é o mais importante : "Pai Nosso
que está nos céus, santificado seja seu Nome".
É o primeiro que
pedimos respeito a nosso fim. A Ele deve tender
nosso coração e nossa alma de duas maneiras:
desejando sua glória, desejando que seu nome seja
santificado por todos os homens, que o reconheçam
como tal, que a glória de Deus se propague entre os
homens, que reconheçamos sua santidade, que
glorifiquemos a Deus, que possamos dizer como Santo
Inácio do Loyola, tudo para a maior glória de Deus
(2) , que possamos dizer como São João da Cruz no
topo do monte da perfeição: "Só mora neste monte
honra e glória de Deus" (3)
E neste dia de
maneira especial, já que o escutamos no Evangelho,
que possamos dizer sempre e em primeiro lugar, como
a Santíssima Virgem no Magnificat: Minha alma
canta a grandeza de Deus (Lc 1,46). O sacerdote
com seu coração cheio de fogo do amor de Deus, deve
lutar com toda a força de sua alma, com todas as
fibras de seu corpo a procurar sempre e em primeiro
lugar a glória de Deus, porque Deus deve "ser o
primeiro servido" (4). E o sacerdote que se esquece
de servir em primeiro lugar, com força, com energia,
entregando todo seu ser na busca da união com o Ser
Supremo, por mais que diga depois que está
procurando o bem dos homens, está procurando coisas
sem valores, porque o bem do homem é que o homem
seja de Deus. Como dizia Santo Irineu "a glória de
Deus é que o homem viva, e a glória do homem é
conhecer Deus".(5)
Peçamos nesta Santa
Missa então para o P. Diego Grisalho, para todos os
sacerdotes, a graça de que se faça carne em nós isto
que dou em chamar o Pai Nosso sacerdotal. De tal
maneira que sempre busquemos em primeiro lugar a
glória de Deus, junto com a glória de Deus, a
extensão de seu Reino sobre a terra, quer dizer o
bem dos homens, e logo que saibamos por eficazmente
o meios para alcançar a Deus. Os meios diretos como
fazer sempre sua Vontade e receber os Sacramentos; e
os meios indiretos como o lutar contra o pecado, as
tentações e o mal. Que a Santíssima Virgem conceda a
este jovem sacerdote um fecundo ministério, que suas
mãos ao chegar a ter mais idade estejam repletas de
boas obras, que seja capaz de formar Santos e se for
necessário que esteja disposto a entregar seu sangue
para ser fiel a Deus. Graça que certamente a
Santíssima Virgem lhe alcançará se for necessário.
Pe. Carlos M. Buela,
IVE
1 São Francisco de
Sales chamado no Diretório de Exercícios
Espirituais, 40
2 Cf. Livro dos Exercícios Espirituais 16
3 Monte de Perfeição, Obras Completas
(Madrid 1982) 73.
4 Santa Juana de Arco, Dictum
5 Adversus Haereses IV, 20, 7
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