Em memória de Dom
Jesus Luis Redondo, que fez possível nosso altar de
ônix branco.
Há uma criatura
que me sorveu o
celebro.
É uma criatura
irracional.
Mais ainda, é uma
criatura inanimada.
Entretanto, há
muitos anos todos os dias a beijo duas vezes. Uma,
quando me aproximo dela; outra quando me afasto e
despeço. E o faço porque assim o manda a Santa Mãe
Igreja. Às vezes, inclusive, a incenso. Essa
criatura …é o altar…!
É o centro do
templo. O templo é um pequeno céu na terra, mas o
que no templo tem de mais celestial e divino, é o
altar.
É o pólo mais
importante da ação litúrgica por excelência, a
Eucaristia.
É o altar, uma
coisa excelsa, elevada, não só pelo lugar elevado
que ocupa, mas também pelas funções que sobre ele se
celebram.
É leito onde
repousa o Corpo entregue e o Sangue derramado.
É atalaia de onde
se observam os horizontes do mundo, já que «quando
eu for elevado da terra – disse Cristo – atrairei
todos a mim» (Jo 12, 32).
É navio por onde
se transportam nossas intenções ao coração de Deus.
É
farol que ilumina todas as realidades existentes,
sem excluir nenhuma, em especial as humanas, porque
«o mistério do homem só se esclarece no mistério do
Verbo Encarnado».2
É carta porque
nele a Santíssima Trindade escreve em nossas almas
as mais sublimes palavras de vida eterna.
É oásis no que os
cansados do caminho renovam as forças: «Venham para
mim todos os que estão fatigados e sobrecarregados,
e eu lhes darei descanso» (MT 11, 28).
É base de
lançamento de onde passa a Vítima divina junto com
nossos sacrifícios espirituais ao altar do céu.3
É agora, ponto de
encontro e de contato de todos os homens e mulheres
que foram que são e que serão.
É porto de
chegada e de partida.
É mastro e torre
de navio de onde deve olhar o caminho a percorrer
para não errar o rumo.
É «fonte da
unidade da Igreja e de concórdia entre irmãos».4
É cabine de
comando de onde devem tomá-las corretas decisões
para fazer sempre a Vontade de Deus.
É clarim que
convoca aos que se violentam a si mesmos: «O Reino
dos céus sofre violência e os violentos o
conquistam» (MT 11, 12).
É bandeira
desdobrada porque abertamente nos manifesta tudo o
que Deus nos ama e, com toda liberdade, ensina-nos
como ser autenticamente livres.
É exército em
ordem de batalha, onde claudicam as hostes
inimizades.
É regaço materno,
segura proteção para o desamparado.
É encruzilhada de
todas as línguas, raças, povos, culturas, tempos e
geografias, e de todos os homens e mulheres de boa
vontade de toda crença, porque «por todos morreu
Cristo» (2 Cor 5, 15).
É tocha porque a
cruz «mantém viva a espera… da ressurreição».5
É trampolim que
nos lança à vida eterna.
É lar, forno,
braseiro, onde obra o Espírito, «o fogo do altar» (Ap
8, 5).
É mesa onde se
serve o banquete dos filhos de Deus, por isso lhe
põe em cima toalha. Sobre ele, reitera-se o milagre
da Última Ceia no Cenáculo de Jerusalém. Realiza-se
a transubstanciação.
É «símbolo de
Cristo»6,
que foi o sacerdote, a vítima e o altar de seu
próprio sacrifício, como diziam São Epifanio7 e
São Cirilo da Alexandria.8 É
o Altar vivo do Templo celestial.9 «O
altar da Santa Igreja é o mesmo Cristo».10 É
o propiciatório
do mundo. «O mistério do altar chega a sua plenitude
em Cristo».11 Maria
está junto a Ele.
É imagem do Corpo
místico, já que «Cristo, Cabeça e Mestre, é altar
verdadeiro, também seus membros e discípulos são
altares espirituais, nos que se oferece a Deus o
sacrifício de uma vida Santa».12
São Policarpo admoesta às viúvas porque «são o
altar de Deus».13
«O que é o altar de Deus, a não ser o espírito dos
que vivem bem?… Com razão, então, o coração (dos
justos) é chamado altar de Deus», insígnia São
Gregório Magno.14
É altar. Sobre
tudo, é altar. Sobre ele se perpetua, através dos
séculos e até o fim do mundo, de maneira incruenta,
o Único sacrifício da cruz.
É uma criatura
inanimada.
É uma criatura
irracional.
Mas me sorveu o
celebro.
NOTAS:
(1) Cardeal Gomá e
Tomás, O valor educativo da Liturgia católica, Ed.
Casulleras, Barcelona, 1945, P. 418.
(2) Concílio
Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no
mundo atual, Gaudium et spes, 22.
(3) Cf. Missal
Romano, Prece Eucarística I, 96.
(4) Pontifical
Romano, Ritual da dedicação de um altar, Prece da
Dedicação.
(5) João Paulo II,
L’Osservatore Romano, 9 de abril de 1999, P. 8.
(6) Cf. nota 4.
(7) Panarium, II,I,
Haeresis, 55.
(8) De adoratione…,
IX.
(9) Cf. Heb 4, 14;
13, 10.
(10) Antigo
Pontifical Romano, Consagração do altar, Or.
(11) Cf. nota 4.
(12) Cf. nota 4.
(13) Ad Phil. 4, 3.
(14) Hom. em Ez.,
II, 10, 19.