CAPÍTULO 3: SEGUNDO OBJETIVO: CONHECIMENTO DE SI
23. (Conhecimento de si) O conhecimento de si mesmo é de capital importância nos começos. No noviciado deve-se começar a edificação espiritual e é de capital importância saber com que materiais se constrói.
Este conhecimento tem dois momentos: dos defeitos e limitações e conhecimento dos dons recebidos.
24. (Dos talentos) Quanto ao reconhecimento dos dons recebidos, talentos e potencialidades é necessário que o Mestre saiba abrir campos de ação, portas, caminhos pelos quais possam transitar os noviços. Na ordem intelectual pô-los em contato com grandes obras, grandes escritores, animando-os a sua leitura, lhes mostrando de diversos modos a importância de seu conhecimento.
25. Introduzi-los ao conhecimento dos distintos ramos do saber: filosofia, Escritura, teologia, moral, por meio das matérias estabelecidas e, além disso, pela participação de congressos ou outras atividades, que embora excedam sua capacidade de compreensão, abrem-lhes panoramas.
Devem-se projetar convivium, disputatio, grupos de estudo e distintos meios de motivação intelectual.
26. Na ordem da conduta também é necessário que decolem voo valorizando e utilizando seus dotes morais. Por ser o noviciado uma família composta em exclusividade de noviços, além de seus poucos formadores, são eles os que deverão levar adiante as distintas atividades, já sejam apostólicas, evangélicas, missionárias, e as de ordem interna, trabalhos, cozinha, economia, etc. Aqui dependerá da capacidade do formador encontrar a pessoa adequada para o posto adequado e logo lhe delegar responsabilidades. Deverá mostrar confiança para que cada qual se afirme em suas responsabilidades. Vendo tudo, saberá intervir só no importante.
27. (Dos defeitos) Mas talvez nos primeiros tempos são mais importantes tratar de conhecer os próprios defeitos para arrancar as ervas daninhas.
Para isto o noviciado é um tempo mais que propício. A comunidade é ainda reduzida, e se não é em número, ao menos todos estão dedicados ao mesmo, sem tanta variedade de objetivos como em outra casa religiosa. É uma família e todos estão à vista do superior. É muito difícil que não se inteire do que acontece. Além disso, tem consideravelmente mais tempo para atendê-los espiritualmente e lhes mostrar seus erros ou desvios. Tem uso de médios mais pessoais no ensinamento. A situação dos noviços é distinta da de um religioso maior. Não formaram ainda juízo e, portanto, estão necessitados de tudo, prontos a receber qualquer conselho ou chamado de atenção.
28. Mas acima de tudo, o maior bem enquanto ao conhecimento das próprias faltas e defeitos é proporcionado pela mesma vida diária em comunidade. Em um noviciado sempre se começa do zero, não há nada armado, o grupo humano não é em nada homogêneo: distintas procedências, famílias, costumes, cultura, que em poucos dias ficam de manifesto. Ao ter que tomar determinações, obrar por conta própria, organizar atividades[14] que em outras casas religiosas estão reservadas a alguém com vários anos de experiência; ao acontecer tudo o que foi dito, muito em breve se choca com fracassos, atritos com companheiros, desânimos..., o que dá ocasião para apalpar as próprias limitações pessoais. É dever superior levar o pulso da situação e estar muito atento a tudo, para saber frear aquilo que possa ser grave e fazer com que se tire experiência do resto. Para o qual não deverá repreender exaltadamente a má obra, a não ser fazer notar a raiz de onde procede, para que se chegue assim ao conhecimento dos próprios limites e defeitos.
CAPÍTULO 4: TERCEIRO OBJETIVO: FORMAÇÃO DA MENTE E O CORAÇÃO COM O INSTITUTO
29. Este objetivo é irmão dos precedentes, porque a vida é a manifestação do espírito. Trata-se da totalidade da pessoa, segundo suas dimensões cognoscitiva e afetiva, mental e cordial; teórica e experimental; interior e operativa.
30. (Formar privadamente) O Mestre de noviços dará a formação por duas vias. No diálogo pessoal será bem claro e ensinará com firmeza que, embora o importante seja encontrar a Deus na oração e oferecer-se na penitência, esse encontro e identificação com Cristo deve praticar-se na vida diária. Identificar-se com Cristo nos deve levar a obrar como Ele, de quem se diz que tudo fez bem (Mc 7, 37). Não há lugar então para fazer pela metade as coisas, tampouco para viver no abandono, senão que se deve ser senhor do que nos rodeia. Menos ainda se pode ser descuidado com o que é dos outros, provocando danos a terceiros ou ao bem comum. Nisto o Mestre será claro e exigente, e lhe dará matéria de trabalho para modelar seus costumes. Pessoalmente poderá chamar a atenção, inclusive repreender quando se vê descuido, relutância ou negligência, e impor castigos.
31. (Formar comunitariamente) Mas distinto é o modo de formar no que olha a levar a comunidade adiante. Ali deve ser muito mais paciente. Deverá indicar o modo de fazer as coisas, mostrar a vantagem de fazê-lo bem, a vantagem de ser ordenados, ou pontuais,... Poderá em tom de brincadeira ridicularizar os defeitos para fazê-los desprezíveis. Mas não é conveniente que use de provocações ou irritações, gastando sua autoridade em estar a todo o momento corrigindo defeitos, ao contrário sua insistência estará em marcar que se está para aprender a rezar e para sofrer por Cristo.
[14] Isto é: apostolados, missões, trabalhos, etc.
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