CAPÍTULO 2: PRIMEIRO OBJETIVO: MELHOR CONHECIMENTO DA VOCAÇÃO
16. (Busca de Deus) A vida deve orientar-se a uma busca exclusiva e sobrenatural de Deus que chama e a quem se deve responder. "Si revera Deum quaerit" admoesta São Bento[9] a quem pedia ingresso em seu monastério. Esta é a principal ocupação do noviço, buscar a Deus, ao Deus revelado pela fé. Não se ingressa para dedicar-se à ciência, à filosofia, à teologia, tampouco à arte, ou para capacitar-se para o apostolado ou para o trabalho educativo. É verdade que se deve servir a Deus com os talentos que Ele nos dá, mais estas obras são só meios para um fim mais alto, e nosso fim é Deus em si mesmo.
17. Tendo em conta o já dito, esta primeira casa de formação não deve ser baixo nenhum ponto de vista um mero pensionato de estudantes, tampouco o estudo tem nela um papel principal, - seu lugar é importante em ordem ao conhecimento de Cristo e dos fundamentos da vida espiritual; as matérias que se ditam são de tom nitidamente espiritual[10] -. Seu forte tampouco é o apostolado[11] ou o trabalho manual. Todos estes são médios para encontrar Deus.
18. Nem sequer se deve pôr como meta a perfeição no obrar: em fazer tudo perfeito, organizado, acabado... Isso é um adorno do obrar exterior, mas o fim é mais interior, e é conhecer e amar Jesus. Não se coloca como fim formar pessoas educadas ou obedientes. Formar segundo o gosto e o modo do superior. Cada qual deve conhecer Cristo para imitá-lo naquilo que Deus lhe deu como vocação particular ou modo próprio de santidade. Não se pode tratar as vocações como se fossem iguais ou pegadas.
19. Mais ainda, não se deve confundir colocando como fim último a prática dos conselhos como se entrássemos na vida religiosa para ser pobres, ou para viver a castidade ou renunciar à própria vontade. Estes elementos nos desatam dos amores terrenos para nos permitir amar só a Deus. Mas insistir exclusivamente na pobreza, castidade ou obediência como objetivos últimos é cingir as almas a obras negativas em si mesmas, desviar as miras espirituais.
20. Insistimos um pouco mais sobre a busca de Deus; para que esta seja sincera deve ser exclusiva, deve-se buscar a Deus por si mesmo, não por seus dons nem por suas consolações. Deus quer que apreciemos o quão doce é servi-lo[12]. Buscar outra coisa é não encontrá-lo tudo em Deus; não poder dizer com São Pablo: julgo que todas as coisas são perdas... e as tenho por lixo para ganhar a Cristo (Fl 3,8).
21. Em toda comunidade se encontram diversas categorias de almas. Algumas vivem alegres e irradiando em torno de si a Santa alegria da qual gozam. Não a puramente sensível, que pode depender do temperamento, senão a interior que é prelúdio da felicidade eterna. Outros não gozam dela, em seu interior estão turvados, inquietos, infelizes. Por que esta diferença? No primeiro caso porque, quem busca Deus em todas as coisas, encontra-o sempre e em todo lugar, e com Deus adquire o Supremo bem e a felicidade que não se perde. No segundo caso, por outro lado, a alma se aferra às criaturas, alimenta o amor próprio e buscando-se a si mesmo se dirige ao vazio, e isto não pode contentá-la. Dar-se-á em tudo à ocupação exterior, mas essa distração será ilusória e insuficiente; encontrará distração, mas não consolo e sentirá sua vida pesada e difícil de levar.
22. São Bernardo perguntava "ad quid vinisti?"[13], por que deixei o mundo, separei-me do que amava, renunciei a minha liberdade, realizei tanto sacrifício? Inventa uma pretiosa margarita vendidit omnia quae habuit et emit eam (MT 13,46).
[10] “O tempo indicado no c. 648 § 1, deve empregar-se propriamente na formação do noviciado, portanto os noviços não devem ocupar-se de estudos ou trabalhos que não contribuam diretamente a sua formação” (CIC, c. 652 § 2).
[13] “Bernardo, Bernardo a que viestes?”, citado por Santo Afonso Maria de Ligório, em La Vocación Religiosa, cap. 3, Editorial Iction, Buenos Aires, 1981, p. 131.
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