CAPÍTULO 1: O NOVICIADO É UM TEMPO DE INÍCIOS

     5. É histórico-temporal, mas, sobretudo, pedagógico e progressivo. Enquanto início, implica uma ruptura com a vida anterior. E a ruptura vem medida pelas implicações dos compromissos que assumiu e que vão desde o local[4], recepção do hábito, unidade por sua duração[5], pelo programa formativo[6] e, sobretudo, pela carga doutrinal e ascético-religiosa à que o noviço vai ficar submetido[7].

     6. (Objeção) Mas este início se dá em um instituto determinado, marcado por um carisma próprio.
     Pode surgir uma objeção: o início da vida religiosa, a busca de Deus, o conhecimento de si mesmo e do instituto, não poderiam alcançar-se de modo mais perfeito vivendo em uma comunidade seja armada, já em marcha. Não seria melhor iniciar a vida religiosa observando a conduta de outros religiosos maiores? Ver seu exemplo, seu modo de entender e viver as leis e costumes. Ali já há atividades em marcha e só seria necessário introduzir-se nelas. Não se pouparia perdas de tempo no ensino dos costumes, horários, modo de viver o silêncio, a oração? Não se evitariam um grande número de improvisações próprias dos primeiros tempos?

     7. As objeções parecem confirmar-se durante os primeiros dias de noviciado, nos quais é muito lento o progresso e custa muito esforço e paciência suportar as falhas e erros próprios do começo. Ainda não há estilo religioso. Não se sabe apreciar o silêncio, não há hábitos de estudos, a liturgia não é muito solene, os horários não são cumpridos com exatidão e se improvisa nos trabalhos, cozinha, etc... Segundo o modo de ser dos candidatos há muitas faltas, desordens, impontualidades, faltas de responsabilidade nos ofícios, no uso e cuidado das coisas; o qual ocasiona desgostos dos mais organizados, desânimos, etc. Normalmente isto é o que acontece nos primeiros dias.

     8. (Resposta) Porém o bem do noviciado não deve ser procurado nos começos deste, senão que é uma obra mais a longo prazo. Busca-se no noviciado o início da vida religiosa e seu amadurecimento. Na vida sobrenatural o progresso é lento, o desenvolvimento é ao modo de uma semente, ao modo da levedura. É um amadurecimento, e querer apurá-lo é como tirar uma fruta de sua árvore e apurá-la desde fora para que amadureça. Por dentro ficará verde e o exterior será só casca ou fachada, mas sem consistência.

     9. Em uma casa maior tudo já está em funcionamento, as leis são cumpridas, os horários levam, os sinos indicam e os religiosos mostram o modo de fazer as obras. Pode acontecer que algum candidato acredite que se adaptando ao já estabelecido está tudo feito; que adquirindo os modos e comportamentos dos demais já é religioso; que com o cumprimento fiel das obras exteriores marcha a passos largos para a santidade. Estas coisas não estão mal; o mal estaria em descuidar a busca de Deus e o conhecimento pessoal e conformar-se em "fazer bem" as coisas. Uma pessoa vai se vestindo de religioso, mas pode acontecer que o interior fique ainda imaturo.

     10. (Amadurecimento interior) Não é tão fácil cair naquilo no noviciado. Nesta casa o noviço está à espera do que seu Mestre vai lhe ensinar. Enquanto às obras exteriores, estas estão infestadas de imperfeições e serão defeituosas. Será tarefa do Formador remarcar continuamente que não está ali a santidade, que fazer bem as coisas está em segundo lugar e será a consequência do amor a Deus que se vai adquirindo. Deverá repetir o fim do noviciado: a busca de Deus; as duas asas dessa busca: a oração e a penitência no ambiente de caridade fraterna no qual se deve viver. O olhar dos noviços deve estar posto nisto, sabendo transcender as aparências exteriores.

     11. Entretanto o Mestre de noviços deve estar muito atento a tudo o que acontece, pois não deve descuidar nem deixar passar o momento oportuno para o ensinamento. O mero correr do tempo não forma, ao contrário, pode fazer pensar que a desordem está aceita, que as coisas se fazem pela metade, que o obrar vulgar é o estilo e isto engendra preguiça e vai minando os grandes ideais.

     12. (Preocupação exclusiva) Vejamos outras conveniências do noviciado. O Código de Direito Canônico[8] pede uma casa distinta das outras casas de formação. A finalidade é viver dedicados pura e exclusivamente a começar a vida religiosa. As preocupações não devem ser as mesmas do restante dos religiosos. É conveniente que se conheça o que logo se fará ou estudará, as virtudes que se vivem no Seminário Maior, inclusive que se saibam os problemas que possam apresentar-se, mas que não os sofra, que o ambiente seja de tranquilidade, que se deseje passar ao Maior, mas que enquanto isso viva com os olhos postos nos próprios objetivos.

     13. É também ocasião de provocar a generosidade e a maturidade, pois se devem tomar responsabilidades desde o primeiro momento. Deve-se criar um ambiente religioso e de santidade e se isso não fazem os noviços ninguém mais o fará.

     14. Tem-se a assistência contínua do sacerdote que por estar dedicado exclusivamente a isso pode observar todas as coisas e dizer a seu tempo os defeitos que vê e dar ânimos e sugestões adequadas a cada pessoa e momento.

     15. Por último, o noviciado é uma etapa bem definida, na qual o candidato deve encher-se de desejos de ser religioso maior. Vivê-lo bem e superá-lo provoca psicologicamente no jovem uma convicção de fortaleza e sã confiança de que poderá confrontar qualquer etapa posterior de sua formação.


[4] “Para que o noviciado seja válido, deve ser realizado em uma casa devidamente destinada para esta finalidade” (CIC, c. 647 § 2).

[5] “Para sua validez, o noviciado deve durar doze meses transcorridos na mesma comunidade do noviciado...” (CIC, c. 648 § 1).

[6] Cf. CIC, c. 650 § 1.

[7] Cf. CIC, c. 652.

[8] Cf. CIC, c. 647 § 2.




Página: 
|
|
|
|