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O "PAGANISMO" DA IGREJA CATÓLICA

 

Certo povo sustenta que a Igreja Católica não foi fundada por Jesus Cristo, mas sim que é um culto pagão com laços que lhe unem à antiga Babilônia. Esta idéia alcançou ampla difusão através de um livro, "As Duas Babilônias"[1]   publicado na Grã-Bretanha por Alexander Hislop em 1858, o qual pretendia estabelecer uma relação entre os ensinamentos e práticas do catolicismo com a religião misteriosa praticada na mencionada Babilônia. Entretanto, a metodologia usada pelo autor do livro, um ministro protestante sem nenhuma formação acadêmica séria, foi desprezada e denunciada como falsa do ponto de vista racional e história.

  Apocalipse 17,1-7— Um dos anjos da sete taças veio dizer-me e me falou: "Vem! Vou mostrar-te o julgamento da grande Prostituta que está sentada à beira de águas copiosas: os reis da terra se prostituíram com ela, e  com o vinho da prostituição embriagaram-se os  habitantes da terra." Ele me  transportou então, em espírito, ao deserto, onde vi uma mulher sentada sobre uma Besta escarlate cheia de títulos blasfemos com sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida com púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas; e tinha na mão um cálice de ouro cheia de abominações; são as impurezas da sua prostituição. Sobre a sua fronte estava escrito um nome, um mistério:"Babilônia, a Grande, a mãe das prostitutas e das abominações da terra." Vi então que a mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus. E vendo-a, fiquei profundamente admirado. O anjo, porém, me disse: "Por que estás admirado? Eu te explicarei o mistério da mulher e da Besta com sete cabeças e dez chifres que a carrega".

Esta passagem bíblica é usada com freqüência para "provar" que a Igreja Católica é a "Prostituta de Babilônia" que São João descreve em sua visão. Tal interpretação não é só errônea senão que é impossível de reconciliar com a história. É óbvio, para quem estuda seriamente as Escrituras, que São João está se referindo a Roma, como "a Grande Babilônia" já que Roma e Babilônia foram as duas únicas potências deste mundo às que Deus permitiu assolar Jerusalém, levando ao exílio cativo a seu povo. Tanto escritos judeus como cristãos compararam Roma com a antiga Babilônia, já que ambas subjugaram a Israel, destruíram o Grande Templo e assolaram a Jerusalém.

Um conhecido promotor das interpretações de Hislop, Ralph Woodrow, seguindo o mesmo caminho, chegou a escrever outro livro chamado "Babilônia, Mistério Religioso"[2].  Anos depois Woodrow teve que repudiar o método que tinha aprendido de Hislop quando acadêmicos de seu próprio grupo protestante lhe assinalaram suas graves carências e sua falta de erudição. Em 1997, Woodrow publicou uma retratação, "A Conexão Babilônica?" na qual expôs os pontos de partida essencialmente errôneos das teorias originais do religioso fundamentalista escocês. Para ilustrar o tipo de lógica defeituosa em jogo, Woodrow usa os mesmos métodos do Hislop para "demonstrar" uma teoria "descabelada": que uma determinada cadeia de restaurantes de comidas rápidas tem suas origens em Babilônia. Citamos:

"Os arcos dourados" são conhecidos em todo mundo como o símbolo identificativo do McDonald'S. Entretanto, devemos assinalar que o arco foi usado habitualmente pelos antigos babilônios em suas portas e palácios. De fato, em pinturas realizadas pelos babilônios, vemos que seus reis são representados nos marcos com forma de arco! Também sabemos que Nabucodonosor, rei babilônico, ordenou a seus súditos que adorassem uma imagem de ouro (Daniel 3, 5-10). E Babilônia era conhecida no mundo antigo como "a cidade dourada". Finalmente, note-se que a primeira letra do McDonald's, a M, é a décima terceira letra do alfabeto (inglês), um número reconhecido como possuidor de um poder místico e que traz má sorte. Pode ser isso uma simples coincidência? Inclusive, o que assinala a letra M além de McDonald's? Claramente ao Moloc, o deus pagão do fogo adorado em Babilônia. E o que se utiliza para esquentar a comida em um McDonald's moderno? A eletricidade, que muitos associariam com uma forma controlada de fogo! Portanto, quem pode duvidar que a cadeia de restaurantes do McDonald's, conhecida por seus arcos dourados, é em realidade um culto misterioso relacionado com o deus do fogo adorado pela antiga realeza babilônica?  

Por ridícula que possa parecer esta forma absurda de raciocinar—simplesmente sabemos que a cadeia do McDonald's não foi criada por um rei de Babilônia, mas sim por um homem americano de negócios chamado Ray Kroc em 1950—esta é exatamente a mesma técnica de raciocínio que usa Hislop para caluniar à Igreja. Em seu ensaio "Anti-catolicismo", o apologeta católico Dave Armstrong explica os enganos de Hislop: "O método [de Hislop] incorre em duas conhecidas falácias lógicas: a falácia "de origem", no que se ataca a fonte de uma idéia em vez da idéia em si e a falácia de "non sequitur" em que um mero parecido "prova" que uma prática provém de outra prática anterior..." Como aclaração digamos que uma falácia lógica é uma proposição apresentada como verdadeira em uma afirmação, mas que só o é na aparência. As falácias lógicas são utilizadas usualmente para justificar argumentos ou posturas que não são justificáveis utilizando a razão. Geralmente para desmascarar enganos, falsidades, ou fraudes. Saber reconhecer as falácias lógicas é de grande ajuda para não ser enganado. O termo latino "non sequitur" significa textualmente "não se segue". No caso que estamos analisando, a similaridade de uma prática católica com uma antiga prática babilônica não implica que a primeira provenha da segunda.

Woodrow também assinala que, se fossem usados os próprios argumentos de Hislop, poderia "provar" que a mesma Bíblia é pagã. Indica muitos elementos presentes na Bíblia que podem ser relacionados com religiões pagãs pré-existentes, como por exemplo o prostrar-se em terra, orar levantando as mãos, uma montanha com uma divindade presente nela, leis gravadas em pedra, o carro do Elias com seus cavalos de fogo. Toda essa fenomenologia bíblica e muito mais, pode achar-se também no paganismo.

Portanto, se usarmos a lógica falaciosa de Hislop, nos veríamos forçados a concluir que a fé ensinada na Escritura é em realidade uma religião pagã. Dado que sabemos que isso é absurdo, devemos concluir forçosamente de que a técnica de Hislop é fundamentalmente errônea.

1 Coríntios 9, 20-22 —Para os judeus, fiz-me como judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão sujeitos à Lei, fiz como se estivesse sujeito à Lei- se bem que não esteja sujeito à Lei-, para ganhar aqueles que estão sujeitos à Lei. Para aqueles que vivem sem a Lei, fiz-me como se vivesse sem a Lei- ainda que não viva sem a lei de Deus, pois estão sob a lei de Cristo-, para ganhar aqueles que vivem sem a Lei. Para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a todo custo.

Mais que condenar toda prática dos gentis como pagã, a Igreja Católica tem procurado sempre inculturizar-se. Quer dizer, tem respeitado o bom que poderia haver em outras religiões e culturas para relacioná-lo com a verdade completa no Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Atos 10,15 Ao que Deus purificou, não chames tu de profano.

Jesus veio trazer a salvação para toda a humanidade. Inclusive àqueles que eram vistos pelos judeus como impuros- e não só a alguns eleitos. Em outras palavras, o amor de Deus não é só para os que já praticam a fé cristã. Ele ama a todos  os homens, aos quais criou a sua imagem e semelhança.

Atos 17,22-23 - Cidadãos atenienses! vejo que, sob todos os aspectos, sois os mais religiosos dos homens. Pois, percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar com a inscrição: "Ao Deus desconhecido." Ora bem, o que adorais sem conhecer, isto lhes venho eu anunciar-vos.

São Paulo não pregou uma cruel condenação aos gregos por sua adoração pagã. Senão que usou as crenças deles como ferramenta através da qual lhes revelaria a verdade completa que está no cristianismo. A Igreja Católica sempre atuou dessa maneira. Note-se também que no versículo 28 se encontra uma referência de São Paulo a dois poetas pagãos, Epiménides ("Nele vivemos, movemo-nos e existimos") e Aratos ("Porque somos também de sua linhagem"). Isto significa que São Paulo estava pregando uma religião pagã? Usando o sistema de Hislop de provar as coisas, chegaríamos a essa ridícula conclusão. Entretanto, é claro pelo contexto que São Paulo está usando uma técnica adequada de debater: a empatia. Simplesmente está usando para sua mensagem termos que têm sentido para sua audiência.

Atos 22, 25 —Depois de o amarrarem com as correias, Paulo observou ao centurião presente: "Ser-vos-á lícito açoitar um cidadão romano, ainda mais sem ter sido condenado?"

Em Atos 22, 25-28 vemos são Paulo afirmar repetidamente sua cidadania isto romana- isto é, sua cidadania em um império pagão—em suas disputas com as autoridades do templo. Obviamente ele não via tal coisa como uma profanação.

Em ocasiões, certos fundamentalistas parecem mais preocupados em preservar a antiga natureza de um cristianismo idealizado, conservando-a em uma espécie de âmbar teológico, que em seguir o exemplo de São Paulo usando toda a astúcia, arte e cérebro próprias no esforço de salvar almas às que Deus ama. Paulo estava menos ocupado em manter a pureza de suas práticas religiosas tradicionaiscomo a circuncisão ou as leis de alimentação judaicasna busca da transmissão da fé, ao que se dedicava com coragem e quando o achou necessário, usou formas pouco convencionais. Portanto, não há razão para temer quando nossa fé é debatidainclusive atacadana areia do mundo das idéias. A verdade essencial do Evangelho é sua proteção.

 

[1] "The Two Babylons :The Papal Worship Proved to be the Worship of Nimrod and His Wife" por Alexander Hislop publ. 1853, 1858, 1919. Panfleto religioso inicialmente produzido pelo pregador escocês  presbiteriano Alexander Hislop em 1853,  reeditado em 1858 finalmente publicado como livro em 1919. Seu tema central é a idéia que a Igreja Católica Romana é a "nova Babilônia" e que todas suas crenças se originam do paganismo.

[2] "Babylon's Mystery Religion, Ancient and  Modern" por Ralph Woodrow, publ. Ralph Woodrow Evangelistic Association, Palm Springs, 1981.

 

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