PARTE V
VIDA COMUNITÁRIA
Capítulo 1: Das Comunidades
Artigo 1: Importância
[90] Embora seja muito certo, em um sentido, que a vida comunitária é máxima penitencia[117], é também muito certo que na matemática um mais um são dois, mas um homem mais outro homem são dois mil. Um homem junto com outro em valor e em força cresce, o temor desaparece, e escapa de qualquer armadilha.
[91] A formosura e os bens da vida fraterna em comum são muito maiores que as dificuldades que suporta: Oh, como é bom, como é agradável para os irmãos unidos viverem juntos! (Sal 133,1).
[92] É justamente pela vida fraterna que nos mostramos, unidos em Cristo: todos vós sois um em Cristo Jesus (Gal 3,8), como uma família religiosa peculiar e deve realizar-se de tal maneira que seja para todos uma ajuda mútua no cumprimento da própria vocação. Pela comunhão fraterna[118] enraizada e fundamentada na caridade, os membros têm que ser exemplo da reconciliação universal em Cristo, é dizer, que devemos ser como “uma Igreja doméstica”[119].
Artigo 2: Essência
[93] Em nossas comunidades devemos tratar de viver o que é a essência do Reino que Jesus Cristo veio inaugurar na terra: O Reino de Deus… é justiça, alegria e paz no Espírito Santo (Rm 14,17). Coisas estas que se identificam com a santidade, que é o que, em última instância, faz que nossas comunidades sejam autênticas. Quando não existe não há lei, nem Superior, que possa evitar a desagregação, como dizia São Pio X: “Onde falta a santidade, inevitável é que entre a corrupção”[120].
Artigo 3: Justiça
[94] Queremos que a justiça, que dá a cada um o seu, a Deus latria, ao superior veneração e obediência, da mesma forma respeito, ao inferior serviço, a todos –segundo medida– caridade, essa virtude tão formosa, que nem o luzeiro da manhã nem o vespertino podem lhe ser comparados em beleza, resplandeça em nossas comunidades. Diz o Papa João Paulo II que para São Gregório VII a justiça é “a ordem de Deus no mundo; ela comporta que todas as coisas humanas, desde as menores até as maiores, estejam ordenadas segundo a vontade e a lei de Deus, que o homem não seja deformado pelo pecado, senão plasmado a imagem de Deus”[121].
Artigo 4: Alegria
[95] Em relação à alegria, como fruto do Espírito Santo e efeito da caridade, terá que tratar, por todos os meios, que “ninguém seja perturbado ou entristecido na casa de Deus[122]. Para isso é totalmente imprescindível viver a caridade fraterna: “Isto é: tenham por mais dignos aos demais (ROM 12,10); suportem com paciência sem limites suas debilidades, tanto corporais como espirituais; ponham todo seu empenho em obedecer-vos uns aos outros; procurem todos o bem dos demais, antes que o seu próprio; ponham em prática um sincero amor fraterno; vivam sempre no temor e amor de Deus; amem a seu Abade (superior) com uma caridade sincera e humilde; não anteponham nada absolutamente a Cristo, o qual nos levará todos juntos à vida eterna”[123].
[96] De tal modo se deveria viver a caridade fraterna que ao ver nossa vida se dissesse: “Olhai como se amam entre si e como estão dispostos a morrer uns por outros!”[124], ou, como também se dizia dos primeiros cristãos, “amam-se ainda antes de conhecer-se”[125]. E não se acredite que isto é uma utopia, já que muitas vezes escutamos expressões parecidas. Devemos ter o firme propósito de salvar sempre a caridade, apesar da possibilidade de haver falsos irmãos[126], que se intrometam para espiar a liberdade que temos em Cristo Jesus (Gal 2,14), que parecem estar conosco, mas não são dos nossos[127]. A caridade não morrerá jamais! (1 Cor 13,8). De cada um de nós dever-se-ia fazer a biografia substituindo a palavra “caridade” por nosso nome no hino de São Pablo aos Coríntios, onde descreve com duas características gerais, oito notas negativas e cinco positivas, o que deve ser o amor fraterno: A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor .Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (1 Cor 13,4-7). “O amor é formalmente a vida da alma, como a alma é a vida do corpo”[128].
Artigo 5: A paz
[97] Em relação à paz, é também fruto do Espírito Santo e efeito da caridade, porque por ela ordenamos a Deus todos nossos afetos, e esta ordem implica a paz. As almas dissipadas não se deixam guiar pelo Espírito Santo, nem vivem, portanto, na paz de Cristo. Esta paz é um dos tantos benefícios que Nosso Senhor trouxe ao mundo, e é efeito de sua Paixão redentora: aprouve a Deus… e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus. (Col 1,19-20).
[98] Esta paz interior a alcança o homem quando elimina o conflito dentro de si, dada às vezes pela luta entre a carne e o espírito[129], ou pela luta na vontade de dois amores contrários.
[99] A paz pode ser falsa: isto ocorre quando permanece em um bem aparente, ou quando se obtém, pelo meio que seja, fazer a vontade própria. A paz verdadeira será perfeita somente na Pátria Celeste; nesta terra é imperfeita, mas sempre podemos conservá-la, ainda em meio das maiores contrariedades, das maiores tribulações e das maiores tragédias, conforme a admoestação do Apóstolo: Não vos inquieteis com nada!… e a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos em Cristo Jesus (Flp 4,6-7). Conquistamos esta paz fazendo que o peso de nossas almas seja o amor, pelo qual nosso coração é levado ao que ama: “meu amor é meu peso”[130]. Se esse amor se põe em Cristo, ali se encontra a paz, já que Ele é o fundamento de tudo: tudo foi criado por Ele e para Ele… tudo subsiste nele (Col 1,16-17). E a paz deve buscar-se dentro, não fora, senão nos encherá de preocupações inúteis e encherá o coração de remorsos contra tudo o que nos rodeia, porque não depende a paz de nossa alma para que desapareçam os obstáculos exteriores, senão o afeto ao pecado: Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros? (Tg 4,1). A paz deve buscar-se dentro porque Deus nos é interior: “Você foi interior a minha mais funda interioridade”[131].
Artigo 6. Capítulo de culpas[132]
[100] Confessai os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros para serdes curados. (Tg 5,16). Ajuda muito para isto o “Capítulo de culpas” que se realiza, geralmente, todas as semanas. O fim deste exercício é humilhar o espírito e mortificar a carne, que assim volta a descobrir suas próprias debilidades.
[101] Devem acusar-se somente das faltas exteriores, cometidas diante de outros, nunca das puramente internas. A acusação deve ser singela, breve, sincera e sem calar nada, humilde e sem justificações, caridosa e sem acusar a ninguém nem revelar defeitos alheios.
[102] Antes cada um deve formar melhor sua opinião e professar maior estima por quem se acusa de suas faltas, embora estas sejam humilhantes, porque, embora tenha que julgá-lo culpável, agora, graças a sua confissão, adverte que é humilde que ama a humilhação e que com esta apagou sua falta.
[103] Fora do capítulo de culpas não se deve falar jamais do ocorrido nele.
Artigo 7. Correção fraterna
[104] Também a chamada correção fraterna ocupa um lugar muito importante para edificar cada uma de nossas comunidades a exemplo da única Igreja de Cristo. É uma obra de misericórdia espiritual: corrigir ao que erra. É a advertência (com a palavra, com um gesto, etc.) feita ao próximo culpado (especialmente se o é por ignorância ou negligência) em privado e por pura caridade (não é correção do superior enquanto juiz, ou judicial, nem enquanto que pai, ou paterna), de irmão a irmão, para lhe afastar do pecado, seja tirando o dele ou evitando que o cometa. “Todos os irmãos, tanto os ministros e servidores como os demais, evitem sempre zangar-se ou irritar-se pelo pecado ou defeito do outro, já que o diabo aproveita a culpa de um só para estragar a muitos. Em troca, ajudem espiritualmente, como melhor possam ao que pecou, porque não são os sãos quem necessitam de médico, senão os doentes”[133].
[105] É obrigação grave, já que não só devemos ajudar ao próximo em suas necessidades materiais, mas também nas espirituais, além de que há um mandato do Senhor: se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganhado em seu irmão. (Mt 18,15). Esta correção se refere aos pecados mortais já cometidos e aos veniais por sua freqüência ou conseqüências podem levar ao pecado mortal. E os pecados materiais cometidos com ignorância invencível terão que corrigi-los se produzirem escândalo, se há perigo de contrair maus hábitos ou se afetarem ao bem comum. Deve fazê-la todo o que tenha caridade, seja superior ou súdito, e um reto juízo racional, ainda quando for um pecador. E de ordinário se faz aos iguais ou inferiores, embora às vezes também aos superiores, sem esquecer que são superiores.
[106 ] Para que seja conveniente e obrigatória deve ser sobre matéria certa, e apresentada manifesta e espontaneamente; deve haver necessidade, prevendo que o próximo não se corrigirá sem ela; deve ser útil, quer dizer, não ser contraproducente nem duvidar do êxito provável; deve ser possível, ou seja, que possa fazer-se sem grave moléstia ou prejuízo do que corrige, a menos que por ofício ou piedade familiar deva fazê-la; e, finalmente, deve ser oportuna, sopesando cuidadosamente tempo, lugar e modo.
[107] No modo deve ser:
- caritativa: procurando só o bem do corrigido e extremando a doçura e suavidade da forma: se alguém for surpreendido numa falta …admoestai-o em espírito de mansidão (Gal 6,1);
- paciente: embora não se obtenha em seguida resultados positivos, terá que voltar uma e outra vez, até que soe a hora de Deus, como a gota de água que lenta e perseverante fura a pedra;
- humilde: considerando sempre como o faria Cristo em meu lugar, sem presunção nem altivez. Particularmente deve se ter reverencia se dirigir-se ao superior[134];
- prudente: escolher o momento e a ocasião, diferindo-o se o culpável está turbado ou diante de outros, encomendando-o a outro se o faria melhor, evitando no possível humilhá-lo;
- discreta: não corrigir todos os defeitos, nem fazê-la a cada momento e a propósito de tudo. Não terá que ser inquisidores da vida alheia, evitando o zelo indiscreto;
- ordenada: salvar a fama, no possível seguindo a ordem do Evangelho[135]. Primeiro, em privado; logo, ante uma ou duas testemunhas; e finalmente, ao superior, que começará pela correção paternal e recorrerá a judicial quando não ficar outro remédio. Se duvidar de sua efetividade, ou o pecado afeta ao bem comum, pode e deve alterar esta ordem.
[108] Portanto, “roguemos que nos sejam perdoadas quantas faltas e pecados tenhamos cometido… e até aqueles que encabeçaram rebeliões e facções devem acolher-se a nossa esperança comum. Pois os que procedem em sua conduta com temor e caridade preferem antes sofrer eles mesmos e não que sofram os demais; preferem que se tenha má opinião deles mesmos, antes que seja vituperada aquela harmonia e concórdia que justa e belamente nos vem da tradição… Há alguém cheio de caridade? Pois diga: se por minha causa veio a rebelião, luta e cisões, eu me retiro e vou aonde queirais, e estou logo a cumprir o que a comunidade ordenar, contanto que o rebanho de Cristo se mantenha em paz…”[136].
Capítulo 2: dos superiores
Artigo 1: um rege a muitos
[109] Há séculos que se descobriu o princípio de unidade e de vida das comunidades: “A multidão é governada melhor por um que por muitos”[137]. Este princípio de unidade é o Superior, no qual devem brilhar a justiça e a misericórdia. Com relação a isto ensina Santo Tomás que “Justiça sem misericórdia é crueldade, misericórdia sem justiça é a mãe da dissolução”[138].
Artigo 2: características do superior
[110] Acreditamos que a melhor descrição do que deve ser um Superior Geral a traz Santo Inácio de Loyola[139] e que, analogamente, vale para todo Superior:
[111] - Deve, em primeiro lugar, estar muito unido a Deus pela oração e por todas suas obras, já que por ele Deus bendiz aos demais membros. Deve impetrar a Deus todas as graças para a comunidade.
[112] - Deve dar exemplo aos demais, resplandecendo no exercício das virtudes, em particular na caridade e humildade. Por isso deve ter sujeitadas as paixões, de modo que nem lhe sejam obstáculo para ver e considerar claramente as coisas com sua razão, nem em seus modos exteriores ou palavras deixe de ser ocasião de edificação, tanto para os membros do Instituto como para os demais. “Ai dos superiores que destroem com o exemplo o que pregam com a palavra!”[140].
[113] - Deve reluzir nele a retidão e severidade, para que só obre procurando agradar a Deus, junto com a benignidade e mansidão, a fim de que até os repreendidos ou castigados advirtam que obra movido pela caridade; deste modo a magnanimidade e fortaleza, para começar grandes obras em serviço de Deus e perseverar até o fim em sua realização, sofrendo as fraquezas de muitos, sem desfalecer por adulações ou ameaças e mantendo-se por cima dos vaivens da fortuna ou do fracasso, tendo a alma disposta a receber a morte, se fosse preciso, pelo bem do Instituto ao serviço de Jesus Cristo.
[114] - Deve estar dotado de grande entendimento e juízo, de modo que nem no especulativo nem no prático careça desta capacidade. Mas sobre tudo, é fundamental que possua prudência e discernimento de espíritos, a fim de que advirta e socorra às necessidades, tanto espirituais como materiais, e que seja capaz de aconselhar e pôr remédio.
[115] - Deve ser vigilante e cuidadoso para começar as obras, e responsável para continuá-las e acabá-las, sem deixá-las negligentemente a metade do caminho.
[116] - Deve ter saúde e idade suficientes para sobrelevar as responsabilidades que tal ofício requer para glória de Deus, assim como também a experiência necessária. Não deve ser de muita velhice nem de muita juventude, pois à primeira faltam forças e à segunda experiência.
[117] - Deve ter daquelas coisas externas que facilitam e ajudam para a edificação do próximo e o serviço de Deus neste cargo, em particular o crédito e boa fama, tanto com os de dentro como com os de fora.
[118] Por tudo isto deve eleger-se para esta função aos de mais virtude e reconhecidos méritos em nossa família religiosa. E faltando, possivelmente, em algum caso, algumas das características enumeradas, não deve faltar, no Superior, bondade e amor ao Instituto, junto com suficiente prudência e ciência, já que o demais poderá suprir-se com o auxílio de Deus.
Artigo 3: A paternidade espiritual
[119] O sacerdote sobre tudo deve ser pai, já que engendra filhos pela cruz, pela oração, pelo zelo apostólico, pela pregação. Neste ministério Cristo foi o primeiro, por isso o chama Pai do século futuro (Is 9,5). Os outros sacerdotes são pais por participação de sua paternidade, são pais “por Ele, com Ele e nele”.
[120] Mas para isto é necessário:
- Ter viva consciência da Paternidade Divina e de sua majestade, a quem tudo pertence;
- não usurpar a glória de Deus: os vínculos da paternidade espiritual são mais fortes que os da carne, mas não devem arrebatar a Deus o que lhe pertence, “a glória de Deus seja para Deus”;
- pedir o espírito de pai, tendo o Espírito de seu Filho e amor puro para com Deus: “Pedir-lhe o espírito de pai para com seus filhos que tivermos que engendrar”;
- deste modo o sacerdote se converte em imagem visível de Deus Pai, a quem não vemos: Ninguém jamais viu Deus. (Jo 1,18).
[121] Mas esta “doce coisa de engendrar filhos” implica, necessariamente, a cruz: “os filhos que temos pela palavra de engendrar nem tanto têm que ser filhos de voz quanto filhos de lágrimas… a chorar aprenda quem toma ofício de pai”. O pai verdadeiro tem que morrer a si mesmo em tudo para que o filho viva. “Quem contará o calar-se que é necessário para as crianças, que de cada coisinha se queixam, o olhar não nasça inveja por ver ser outro mais amado, ou que parece sê-lo, que elas? O cuidado de dar-lhes de comer, embora seja tirando o pai o bocado da boca, e ainda deixar de estar entre os coros angélicos por descender para dar sopinhas às crianças? É mister estar sempre moderado, a fim de que a criança não ache alguma resposta menos amorosa. E está algumas vezes o coração do pai atormentado com mil cuidados, e teria por grande descanso soltar as rédeas de sua tristeza e fartar-se de chorar, e se vier o filhinho tem que jogar com ele e rir, como se nenhuma outra coisa tivesse que fazer. Pois as tentações, aridez, perigos, enganos, escrúpulos, com outras mil histórias de sinistros que lhe sucedem quem os contará? Que vigilância para estorvar não venha a eles! Que sabedoria para sabê-los tirar depois de entrados! Paciência para não cansar-se de uma e outra e mil vezes ouvi-los perguntar o que já lhes responderam, e lhes tornar a dizer o que já lhes disse! Que oração tão contínua e valorosa é mister para com Deus, rogando por eles para que não morram! Porque se morrem, acredite-me, pai, que não há dor que a esta se iguale, nem acredito que deixou Deus outro gênero de martírio tão lastimoso neste mundo como a tortura da morte do filho no coração do que é verdadeiro pai… Portanto, a quem quiser ser pai, convém-lhe um coração terno, e muito de carne, para ter compaixão dos filhos, o qual é grandíssimo martírio; e outro de ferro, para sofrer os golpes que a morte deles dá, para que não derrubem ao pai ou o façam de tudo deixar seu ofício, oudeprimir, ou passar alguns dias em que não entenda senão em chorar”. Eis aqui o ideal do pastor! Daqui também que os que “não tiveram em nada o engendrar filhos espirituais, fugiram do trabalho de criá-los”[141], são as antíteses do verdadeiro pai, são a negação do sacerdócio, como a paternidade é sua plenitude.
Capítulo 3: Dos súditos
[122] Há que saber que a comunidade se constrói dia a dia, momento a momento. Sempre foi muito insidiada, V. gr. o caso de Frei Rufino com São Francisco de Assis – nada menos![142]–, hoje em dia o é muito mais e, digamos, que tem tribulações ou tentações próprias, umas gerais, sobre todos os membros; outras particulares, seja sobre os superiores, seja sobre os súditos.
Artigo 1: Dificuldades gerais
[123] Tentações gerais ou “estados” de tentação são, por exemplo, quando a comunidade, ou grande parte dela, não reconhece na fé o dom singular do chamado e, portanto, da resposta correspondente; quando não há projetos entusiastas de futuro; quando não há empenhos de presente exultantes de ideais; quando não há agradecimento pelos benefícios do passado; quando diminui na comunidade a generosidade na entrega e se vai caindo no aburguesamento do conforto desordenado; quando se respira um clima de murmuração, de suspicácias, de crítica negativa, de paixões desordenadas, de tensões; em uma palavra, quando não se vive na fé, a esperança e a caridade…, quando não se busca a unidade na verdade e na caridade…, quando pela árvore das dificuldades se perde de vista o bosque das coisas que estão bem, quando se faz tempestade em um copo de água para chamar a atenção, quando falta o diálogo e a solidariedade…
Artigo 2: Dificuldades particulares
[124] Nos súditos costumam dar-se tribulações, quando um membro se fecha em si mesmo, procura egoistamente seus interesses e cai em alguma das quatro raízes do amor próprio, ou seja, juízo próprio, vontade própria, honra própria e gosto próprio. São os que atiram as pedras e escondem as mãos, os que só vêem a palha no olho alheio e não vêem a trave no deles[143].
[125] Quando o súdito crê-se muito importante considera que o que sofre é muito grande, por isso exorta São Pedro: Não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária
(1Pd 4,12)[144]. “Muito cuidado! Não vades crer -como os devotos orgulhosos e presunçosos- que vossas cruzes são grandes, que são prova de vossa fidelidade e testemunho de um amor singular de Deus por vós. Este engano do orgulho espiritual é muito sutil e engenhoso, mas cheio de veneno. Pensai melhor que vosso orgulho e delicadeza vos levam a considerar como traves as palhas, como chagas as picadas, como elefantes os ratos; uma palavrinha que se leva o vento –um nada em realidade– como uma injúria atroz e um cruel abandono...esse volver e revolver deleitosamente os próprios males, essa crença lucífera de que são de grande valia, etc.”[145].
[126] Quando se cai em duplicidade de espírito, então, ainda sem sabê-lo, incubam ovos de serpente e tecem teias de aranha[146], imagem da maldade e da impotência do homem entregue a si mesmo, próprio daqueles que não obedecem a seus superiores legítimos ,mas sim, sendo rebeldes, procuram “superiores” a seu gosto para seguir julgando a partir de um princípio “alheio” à comunidade e destroem em si o espírito de comunhão ao pôr um princípio de unidade distinto do autêntico, e assim começam a ver tudo ao revés: ter um mesmo sentir (Rom 12,16; Flp 2,2) é obsequência; discernir juntos é injustiça; a caridade é debilidade; exercer a autoridade, egolatria; confiar na Providência, imprudência; a justiça é dureza; a obediência, servilismo; que alguém seja pai, é porque o considera igual ou mais que Deus; a eutrapélia é relaxamento; a virgindade de coração, impossível; a firmeza, intolerância; a flexibilidade, componenda; dizer a verdade, mentira; fazer o bem, um mal; e assim o que tem outro espírito se entristece com o que a comunidade se alegra, e se alegra com o que entristece à comunidade… caindo naquilo de Isaías: Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce! (Is 5,20).
[127] Quando se faz “acepção de pessoas” e se escamoteia o espírito dos votos, com amores desordenados consentidos, manejo de bens sem permissão, desobediências conscientes, destrói-se a vida comunitária. A acepção de pessoas é um tipo de injustiça expressamente proibido na Sagrada Escritura: não fareis acepção de pessoas (Dt 1,17), posto que em Deus não há acepção de pessoas (Ef 6,9).
[128] Mais particularmente há tentações contra os Superiores, seja procurando de rebaixar sua autoridade ou sua credibilidade, seja para que não os ouça ou para que não dirijam. Zacarias havia profetizado: Fere o pastor e se dispersarão as ovelhas (Zc 13,7), palavras que antes de sua Paixão cita o Senhor como causa da fuga e dispersão dos discípulos[147].
[129] Como se fere os Superiores? De muitas maneiras: impedindo que falem, tratando de que os súditos não entendam o que falam ou que o entendam ao revés, colocando obstáculos no caminho aos bons pastos (à conversão, à perfeição, etc.), atentando contra sua capitalidade, já que vai diante deles (Jo 10,4), assustando-os para que deixem as ovelhas e fujam, procurando que não conheça os súditos e estes não os conheçam , distraindo-os com coisas menores para que não se ocupem das importantes, pressionando-os para que não dêem a vida pelas ovelhas, etc.
[130] Há tentações que atacam diretamente às ovelhas, isso ocorre quando os súditos não escutam com docilidade aos superiores, quando de palavra dizem obedecer mas em prática não obedecem, quando se desculpam acusando aos superiores, quando atuam como cabilderos, ou seja, administrando com atividade e manha para ganhar vontades com o fim de alcançar seus projetos pessoais, geralmente formando grupo ou camarilhas, para influir sub-repticiamente –de maneira oculta e às escondidas– para tratar de obter o que, supõem às vezes, de outro modo não se conseguiria.
[131] Finalmente, fica claro que todo este tipo de anormalidades e quantas mais se poderem denunciar se deve, em última instância, à falta de santidade. Quando uma alma ama de verdade, toda dificuldade se lhe torna leve e é ocasião para ganhar méritos para a vida eterna: Meu jugo é suave e minha carga leve (Mt 11,30) e, pelo contrário, quando alguém não ama, o mais leve se lhe faz insuportável.
Capítulo 4: Construir a comunidade
[132] A nosso modo de ver, os pilares sobre os quais devem edificar-se nossas comunidades religiosas, não são outros que os fins aos que apontam os distintos aspectos da formação integral de nossos membros (ver Parte VII):
Artigo 1: Virtudes humanas
[133] Ante tudo esta formação deve fundamentar-se naquela “perfeição humana que brilha no Filho de Deus e se transparece com singular eficácia em suas atitudes para com os demais”[148], a fim de servir de ponte e não de obstáculo a outros para encontrar a Deus, conhecendo em profundidade a alma humana, intuindo suas dificuldades e problemas, facilitando o encontro e o diálogo, obtendo a confiança e colaboração, expressando juízos serenos e objetivos. Em outras palavras, há que tratar de formar personalidades equilibradas, sólidas e livres, capazes de levar o peso de responsabilidades; que amem a verdade e a lealdade, respeitem às pessoas, tenham sentido de justiça, sejam fiéis à palavra dada, tenham verdadeira compaixão, sejam coerentes, e, em particular, o equilíbrio de juízo e de comportamento[149].
[134] Há que ter capacidade para relacionar-se com outros, não ser arrogante nem polêmico, sincero em suas palavras e em seu coração, prudente e discreto, generoso e disponível para o serviço, capaz de oferecer-se pessoalmente e de suscitar em todos relações leais e fraternas, disposto a compreender, perdoar e consolar[150]. Há que ser de grande maturidade afetiva já que “não se pode viver sem amor”[151], e de uma educação à sexualidade tal que favoreça a estima e o amor à castidade, sabendo incluir dentro das relações humanas, serena amizade e profunda fraternidade, e sobre tudo um grande amor, vivo e pessoal, a Jesus Cristo. Quando falta isto, é impossível formar comunidade, do mesmo modo, quando há graves falências humanas e não ficam os meios para sair delas.
[135] Também se deve saber viver em madura liberdade responsável e com uma delicada, não escrupulosa, consciência moral.
Artigo 2: A vida de oração
[136] Sobre tudo, funda-se a comunidade em uma vida espiritual intensa[152]: a Missa diária, a adoração ao Santíssimo Sacramento, a reza da Liturgia das Horas, a Liturgia Penitencial semanal[153], o capítulo semanal, a reza diária do Santo Rosário e do Angelus, a Via- Sacra, o uso do escapulário, etc.
[137] O principal, o mais importante que devemos fazer cada dia, é participar do Santo Sacrifício da Missa. É o ato principal de culto, o sacrifício de louvor que dá a Deus glória infinita. Nela Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, perpetua nos altares de todo o mundo seu Sacrifício redentor, de maneira que os efeitos de sua Paixão alcancem a todos os homens de todos os tempos. A Santa Missa é o ato litúrgico por excelência, e “a liturgia é a cume a qual tende a atividade da Igreja e ao mesmo tempo a fonte de onde emana toda sua força”[154], dela “deriva para nós a graça… e se obtém com a máxima eficácia aquela santificação dos homens em Cristo e aquela glorificação de Deus a qual as demais obras da Igreja tendem como a seu fim”[155]. Tenha-se grande aprecio pela Missa concelebrada pelos membros da comunidade.
[138] “O cântico de louvor que ressoa eternamente nas moradas celestiais e que Jesus Cristo, sumo Sacerdote, introduziu neste desterro foi continuado fiel e constantemente pela Igreja”[156]. Este cântico de louvor constitui a Liturgia das Horas, em que a “função sacerdotal (de Cristo) prolonga-se através de sua Igreja, que sem cessar louva o Senhor e intercede pela salvação de todo o mundo…”[157]. A Liturgia das Horas, “fonte de piedade e alimento da oração pessoal”[158], deve realizar-se com a convicção de que “todos aqueles que exercem esta função… enquanto louvam a Deus, estão ante seu trono em nome da mãe Igreja”[159]. Nesta oração, “complemento necessário do ato perfeito do culto divino que é o sacrifício eucarístico”[160], é necessário “que… reconheçamos nossa própria voz em Cristo e sua própria voz em nós” [161]. Dentro do possível terá que tentar realizar em comum a oração das Laudes e Vésperas.
[139] Em especial, devemos tratar de manter a exposição e adoração do Santíssimo Sacramento durante uma hora diária –na medida do possível–, assim como a Adoração Perpétua em cada Província e distributivamente em cada Casa, posto que adorar ao Santíssimo Sacramento é “o ato mais excelente, pois comparte a vida de Maria na terra, quando lhe adorava em seu seio virginal, no presépio, na Cruz ou na divina Eucaristia. O ato mais santo, já que é este o exercício perfeito de todas as virtudes: fé, a qual é perfeita e completa quando adora a Jesus Cristo oculto, velado e como aniquilado na Sacratíssima Hóstia; esperança, já que para que pudéssemos esperar pacientemente o céu da glória, e para nos conduzir a ele, criou Jesus Cristo o formoso céu da Eucaristia; caridade, pois como o amor é toda a lei, toda ela se cumpre ao adorar a nosso Deus e Senhor no Santíssimo Sacramento com toda a mente, todo o coração, toda a alma e com todas as forças; adorando também se pode praticar a caridade perfeita para com o próximo, orando por ele e implorando em seu favor as graças e misericórdias do Salvador. O ato mais justo: adoramos ao Jesus Cristo por aqueles que não lhe adoram, lhe abandonam, lhe esquecem, lhe menosprezam e lhe ofendem”[162].
[140] Com a reza do Santo Rosário, preferencialmente diário, meditamos a obra da Redenção consumada por Jesus Cristo, na qual associou a sua Mãe. “O Santo Rosário é um sacrifício de louvor a Deus pelo benefício de nossa redenção e uma devota lembrança dos sofrimentos, morte e glória do Jesus Cristo”[163]. “Se viu, por experiência, que aqueles e aquelas que… têm grandes sinais de predestinação, amam, gostam e recitam com prazer a Ave Maria, e que, quanto mais são de Deus, mais amam esta oração… Não sei como acontece isto, nem por que; mas, entretanto, é verdadeiro; e não possuo segredo melhor para conhecer se uma pessoa é de Deus, que examinar se ama rezar a Ave Maria e o Rosário”[164]. O Rosário é um “compêndio do Evangelho”[164], “oração evangélica centrada no mistério da Encarnação redentora”, e nele “a repetição letânica do ‘Ave Maria… ’ se converte também em louvor a Cristo”[165].
[141] Do mesmo modo, outra prática de piedade e de veneração a Santíssima Virgem que deve nos caracterizar é o Ângelus, pelo qual “enquanto comemoramos a Encarnação do Filho de Deus pedimos ser levados por sua Paixão e Cruz à glória da ressurreição”, e no que se dão, como elementos essenciais, “a contemplação do mistério da Encarnação do Verbo, a saudação à Virgem e o recurso a sua misericordiosa intercessão”[166]. A reza do Ângelus deve nos servir “para renovar a consciência do mistério da Encarnação do Filho de Deus”[167].
Artigo 3. A vida intelectual
[142] Deste modo é motivo de encontro a tarefa intelectual, seja na preparação, consciente e inteligente, da homilia dominical, no estudo dos casos de moral que podem apresentar-se, de ascética e mística, dos planos pastorais. Para isso é necessário saber obter o silêncio e recolhimento, o uso adequado da bibliografia necessária: “Para os Santos, o estudo era oração e contemplação”[168]. Por que alguns que aparentemente estudavam muito se equivocaram? Diz Santo Agostinho que “não conheceram o caminho (que é o Verbo) para descender desde si mesmo para Ele, para poder ascender até Ele. Ignorando, pois, este caminho, acreditam-se excelsos e luminosos como os astros, quando em realidade vieram a terra e se obscureceu seu coração (Rom 1,21)… Não procuram com espírito de piedade o Artífice do universo, e por isso não o encontram… porque é vaidade fazer profissão destas coisas mundanas, mas é piedade o confessar a Ti”[169].
[143] A propósito deste aspecto, deve alentar-se toda forma ordenada de acesso à cultura universal, de maneira especial, o conhecimento dos que são considerados os grandes mestres em literatura, pintura, música culta e coral, escultura, arquitetura, as modernas artes visuais… Do mesmo modo, para aqueles que tenham as devidas disposições, o conhecimento dos distintos ramos de todas as ciências humanas: físicas, matemática, astronômicas, naturais, médicas, jurídicas, sociais, políticas, históricas, filosóficas, filológicas, etc.
Artigo 4: A vida de disciplina
[144] Os membros do Instituto habitam na própria casa religiosa, fazendo vida em comum, sob a dependência do superior[170].
[145] Como é evidente, a vida comunitária exige uma disciplina para que cada membro ajude ao bem de todos. São de todo ponto de vista necessários horários comuns para as atividades comuns. É também necessário a partilha eqüitativa dos “ofícios” ou tarefas a desenvolver por cada um, fazendo-se responsável, em consciência, cada um do ministério que lhe foi encomendo.
A. Diálogo com o Superior
[146] É necessário que todos os religiosos acudam com freqüência e com total confiança a seu superior para lhe manifestar seu estado de saúde, a marcha de seus estudos, do trabalho apostólico, as dificuldades que encontra na vida religiosa e na caridade fraterna, assim como tudo o que possa contribuir ao bem dos indivíduos e da Comunidade. Os superiores devem considerar este diálogo uma de suas obrigações e estar sempre dispostos a receber e escutar a seus súditos.
B. A recreação
[147] Nesta ordem merece uma menção especial o tempo dedicado à recreação ou eutrapélia, tanto em convivências, como em férias, esportes, saídas, etc. Sobre tudo nas comunidades menores não deveria desculpar-se a ninguém de sua participação. Geralmente se um de nossos membros não participa cordialmente da recreação, logo depois de corrigi-lo, se não mudar, caritativamente diga-o que não tem espírito para nosso Instituto e separe-o.
C. Para ausentar-se
[148] Os membros do Instituto habitam na própria casa religiosa e não podem ausentar-se dela sem permissão do superior ou de quem faz suas vezes. De acordo com o direito[171], estabelecemos que se é uma ausência breve, pode conceder permissão o Superior local. Se for prolongada (diuturna), pode conceder licença o Superior Provincial, não necessariamente o Superior Geral. Estabelecemos que ausência prolongada é a que se estende por mais de um mês. Para conceder a permissão de ausência prolongada, além de causa justa, o Superior necessita não um mero assessoramento, mas o consentimento de seu Conselho. Como regra geral a ausência não pode prolongar-se mais de um ano, salvo os três casos previstos[172]: por motivo de enfermidade, apostolado ou estudos.
[149] Quando, por exigências da vida apostólica encomendada ao Instituto, os religiosos precisem viver permanentemente fora de suas comunidades, será necessário uma permissão expressa do Superior Provincial, quem o concederá ou negará tendo em conta a importância da missão a cumprir e o bem espiritual do próprio religioso. De qualquer maneira se terá que prever um regime de visitas à comunidade mais próxima para que possa manter-se mais facilmente o vínculo comum. Esta norma deve se entender do apostolado exercido em nome do Instituto, não de qualquer apostolado pessoal e livremente eleito pelo religioso.
[150] Quando algum membro sinta alterada sua saúde terá que comunicar a notícia ao Superior e estar disposto ao que disponha com absoluto desprendimento e indiferença.
[151] Fora destes supostos (enfermidade, apostolado ou estudos), para uma ausência superior a um ano terá que acudir-se ao indulto de exclaustração[173]. A ausência ilegítima por mais de um semestre constitui causa para poder ser expulso do Instituto[174].
d. Uso dos meios
[152] Seja-se muito discreto no uso dos meios de comunicação, que em geral são traumáticos para levar uma vida de autêntica oração e de estudo. O pouco que se leia, veja e ouça seja sempre com grande espírito crítico. O uso indevido da televisão, o vídeo, etc., é destruidor das comunidades, já que enchem a alma de coisas que não são Deus. Deve-se evitar, tempestivamente, o que seja nocivo “para a própria vocação ou perigoso para a castidade de uma pessoa consagrada”[175].
E. Clausura
[153] Em todas as casas deve observá-se a clausura, reservando-se uma parte da casa para o uso exclusivo dos religiosos, adaptando-se convenientemente em cada uma segundo o próprio regulamento, incluídos os mosteiros[176].
F. Hábito
[154] Além disso, os religiosos de nosso Instituto têm que vestir o santo hábito, que é sinal de sua consagração e testemunho de sua pobreza[177]. O valor do hábito está dado “não só porque contribui ao decoro do sacerdote em seu comportamento externo ou no exercício de seu ministério, mas sobre tudo porque evidencia na comunidade eclesiástica o testemunho público que cada sacerdote está chamado a dar da própria identidade e especial pertença a Deus”[178]. Os sinais devem empregar-se agora mais que nunca, “sobre tudo neste mundo de hoje, que se mostra tão sensível à linguagem das imagens… onde se debilitou tão terrivelmente o sentido do sacro, a povo necessita também estas reclamações a Deus, que não se podem descuidar sem um certo empobrecimento de nosso serviço sacerdotal”[179]. Este sinal “para o religioso expressa sua consagração e põe em evidência o fim escatológico da vida religiosa”[180]. Amemos, pois, o hábito, que nos deve fazer pele. Dizia São Francisco de Assis que só com a presença do religioso vestido com seu santo hábito já se pregava[181].
Artigo 5: A vida pastoral
[155] A vida pastoral, está orientada a “comunicar a caridade de Cristo”[182], nela terá que pôr especial ênfase, já que quando se realiza de maneira ordenada fomenta, de maneira eminente, a vida comunitária.
[156] Para nós o trabalho pastoral é cruz, não motivo de escapismo; por isso nunca terá que cair no estéril ativismo: “a atividade para o Senhor não deve fazer esquecer Aquele que é o Senhor da atividade”[183].
[157] Nos capítulos semanais, logo do primeiro ponto sobre espiritualidade e do segundo sobre as faltas, tenha um terceiro ponto para organizar –entre outras coisas– o trabalho pastoral. Ninguém assuma por si mesmo compromissos, nem de celebrar Missas, nem de pregações, etc., sem a permissão explícita do Superior –ou seu delegado– a quem corresponde coordenar ditos trabalhos apostólicos.
[158] Saiba passar-se de uma pastoral de espera a uma pastoral de proposta, de uma pastoral burocrática a uma pastoral incisiva. Salvo a parte de clausura, tenham-se abertas as portas para que possam vir a nos consultar os paroquianos. De maneira especial tenham-se, segundo os lugares, abertos os templos, e se houver perigos, busque-se prudentemente que haja algum tipo de vigilância, mas salvo circunstâncias realmente graves e insolúveis, que o Povo de Deus possa acessar com comodidade a Jesus presente no Sacrário.
[159] Aos pobres temos que tê-los sempre conosco, sobre tudo dando-lhes de comer. Não tenhamos medo de que não vá alcançar para nós. Deus não se deixa ganhar em generosidade. O Superior deve ordenar tudo o que se refira à atenção dos pobres. Dado o caso, não só se atenda às obras de misericórdia urgentes, mas também às obras de promoção da justiça de médio e longo prazo.
[160] Terá que assumir, na medida do possível, sem deixar os meios tradicionais de apostolado, os modernos campos que se abrem à atividade da Igreja. A sã criatividade é um elemento essencial da Tradição viva da Igreja. Não terá que ter medo, o mesmo Cristo nos convida: Navegai mar dentro! [184]. Isto conservará sempre sua atualidade já que “Deus é sempre o que era desde sempre” [185].
[117] Cf. F. Cervós, Vida do angélico jovem São João Berchmans, Madrid 1920, p. 150: “Mea maxima poenitentia vita communis”.
[120] São Pio X, Exortação ao clero católico, Haerent animo (04/08/1908), 5.
[121] Homilia durante a Missa celebrada na praça de Concórdia (26/5/1985), 1: OR (07/07/1985), p. 7.
[122] São Bento, Santa Regra, XXXI, 19.
[123] São Bento, Santa Regra, LXXII, 1-12.
[124] Tertuliano, Apologética, ML 1,534.
[125] Minucio Félix, Octavias, ML 3,289.
[128] Santo Tomás de Aquino, S. Th., II-II, 23, 2, ad 2. Jo 2,19.
[130] Santo Agostinho, Confissões, XIII, cap. 9, 10.
[131] Santo Agostinho, Confissões, III, cap. 6, 11.
[132] Cf. RHS, nnº 254, 256-258. 261, 263.
[133] São Francisco de Assis, Escritos, Casa Editrice Franciscana, Assisi, Ed. Porziuncola 1984, p. 33.
[136] São Clemente Romano, Carta aos Coríntios, L, 1.
[137] Santo Tomás de Aquino, S. Th., I, 103, 3.
[138] Super Evangelium S. Matthei lectura, Ed. Marietti, nº 429.
[139] Cf. Constituições da Companhia de Jesus, parte VIII, cap. 3
[140] São José de Calasanz, Vida, cap. 31, sentença 46.
[141] São João de Ávila, Segundo Memorial ao Concílio de Trento, op. cit., T. VI, p. 92.
[142] Cf. São Francisco de Assis, Fioretti, Parte I, cap. 28
[144] Cf. São Luís Maria Grignion de Montfort, Carta circular aos Amigos da Cruz, nº 48.
[145] São Luís Maria Grignion de Montfort, Carta circular aos Amigos da Cruz, n° 48.
[149] Cf. OP, 11; PO, 3; Sagrada Congregación para la Educación Católica, Ratio Fundamentalis institutionis sacerdotalis (06/01/1970), 51: l.c., 356-357; PDV, 43
[150] Cf. 1 Tim 3,1-5; Tit 1,7-9.
[156] Paulo VI, Constituição apostólica Laudis canticum (01/11/1970), prólogo.
[160] Paulo VI, Constituição apostólica Laudis canticum (01/11/1970), prólogo.
[161] Ibidem, 8; Cf. Santo to Agostinho, Comentarios sobre os salmos, 85,1.
[162] São Pedro Julião Eymard, Obras eucarísticas, Ed. Eucaristía, 1963, pp. 763-764
[163] São Luis Maria Grignion de Montfort, O segredo admirável do Santíssimo Rosário, nº 68.
[165] Pio XII, Carta ao Arcebispo de Manila, Philippinas Insulas, A.A.S. 38 (1946).
[166] Paulo VI, Encíclica Marialis cultus (02/02/1974), 46.
[168] João Paulo II, Homilia na Missa da apresentação da Encíclica Laborem Exercens (13/09/1982); OR (20/09/1981), p. 2
[169] João Paulo II, Discurso na Itália aos participantes no simpósio internacional celebrado com ocasião do 350 aniversário da publicação dos Diálogos sobre os dois máximos sistemas do mundo do Galileu Galilei (09/05/1983), 8; OR (07/08/1983), P. 2.
[170] Confissões, V, Cap. 3, 5.
[173] Cf. CIC, c. 696, § 1
[174] Cf. CIC, c. 696, § 1
[177] Cf. CIC, c. 669, § 1.
[178] João Paulo II, Carta ao Card. Ugo Poletti, Vigário Geral para a Diocese de Roma (08/09/82); OR (24/10/82), p.5.
[181] Cf. São Francisco de Assis , Fioretti.
[183] João Paulo II, Alocução em Roma a União internacional de Superiores Gerais (22/05/1986), 4; OR (12/10/1986), p. 21.
[185] Santa Catarina de Sena, primeira carta a Gregório XI.
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