PARTE IV

VIDA CONSAGRADA

Artigo 1: Princípios Gerais

[48]   A vida religiosa, pela qual nos entregamos totalmente ao serviço de Deus, no qual está a perfeição do homem, consiste principalmente no cumprimento dos três votos de castidade, pobreza e obediência, impulsionados pela caridade.

[49]   A profissão dos votos:

         - Em primeiro lugar, extrai da graça batismal seu fruto mais copioso, libera-se assim dos impedimentos que poderiam apartá-lo do ardor da caridade e da perfeição do culto divino, consagrando-se mais intimamente ao serviço de Deus[66]. A consagração com os três votos fixa suas raízes na consagração batismal, da qual é a expressão mais perfeita, pois quem assim se entrega a Deus leva a sua máxima perfeição as exigências batismais: com Ele fomos sepultados pelo batismo para participar de sua morte…(Rm 6,4).

[50]   - Em segundo lugar, equivale em certo modo ao martírio, posto que o religioso possui a mesma vontade que o mártir: ambos aceitam sua morte a este mundo para unir-se plenamente a Cristo e formar parte de seu reino: “mesmo que falte ocasião de perseguição, sem embargo a paz tem seu martírio: porque embora não submetamos a carne com o ferro, destroçamos os desejos carnais da alma com a espada espiritual[67]”.

[51]   - Em terceiro lugar, a profissão religiosa constitui um verdadeiro holocausto de si mesmo, já que em virtude dos votos se entrega a Deus todo o próprio, sem reservar-se nada: pelo voto de castidade, o bem próprio do corpo; pelo voto de pobreza, as coisas exteriores; e os bens da alma pelo voto de obediência[68].

[52]   - Em quarto lugar, a profissão religiosa é uma verdadeira consagração, pela qual o religioso é algo sagrado, destinado ao culto divino, propriedade de Deus.

[53]   Com a profissão dos votos nos esforçamos por desenraizar de nós as três concupiscências, incompatíveis com a caridade do Pai: concupiscência da carne (desordem no comer, no beber, nos bens sensíveis), concupiscência dos olhos (afã de ver tudo, de possuí-lo), soberba da vida (desordem nas honras, ostentação, jactância, auto-suficiência)[69], que respondem exatamente àquelas tentações com as que o demônio pretendeu seduzir a Nosso Senhor: Ordena que estas pedras se convertam em pães…(Mt 4,3), ou seja, gula;  jogue-te daqui para baixo (Mt 4,6), quer dizer, fazer as coisas por ostentação; e tudo isto te darei se me adoras (Mt 4,9), ou seja, soberba. Nestas três tentações “acha-se a matéria de todos os pecados, porque as causas das tentações são as mesmas da cobiça: o deleite da carne, a esperança da glória e a ambição do poder”[70]. É a mesma armadilha que usou o pai da mentira com o Adão e Eva, tentando-os a comer do fruto proibido, porque era ao bom gosto, agradável à vista e apto para alcançar sabedoria (Gn 3,6).

[54]   Por isso, o mesmo Cristo dá três armas contra estas insídias, arma às que se pode reduzir cada um dos votos nos que consiste essencialmente o estado religioso. Assim, à pobreza se corresponde o mandato da esmola[71], em que se contém tudo o que se faz por amor ao próximo, desprezando as riquezas e a ambição; à castidade, o jejum[72], no qual se condensa tudo aquilo que alguém faz para refrear-se a si mesmo em suas concupiscências; e à obediência, a oração[73], pela qual “o religioso se submete a Deus e manifesta ao orar que necessita Dele como Autor de todos os bens”[73], e aqui se contém o que se faz para dar reto culto a Deus, pelo qual o voto de obediência, nascido deste culto a Deus, constitui essencialmente o estado religioso.

Artigo 2 : O voto de castidade

[55]   Imitando ao Jesus Cristo, que tendo amado aos seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13,1), mediante o voto de castidade queremos oferecer a Deus o holocausto de nosso corpo e de todos nossos afetos naturais, vivendo “a obrigação da continência perfeita no celibato”[74]. Implica uma eleição preferencial do amor exclusivo a Deus, já que livremente escolhemos ser dos eunucos que a si mesmos se feito tais por amor do reino dos céus (Mt 19,12).

[56]   Esta virgindade, que é acima de tudo do coração, nasce da caridade e a ela se ordena, a fim de poder cumprir com a máxima perfeição o supremo mandamento: Amarás ao Senhor seu Deus com todo seu coração, com toda sua alma e com toda sua mente (Mt 22,37). Por isso o voto de castidade permite ao religioso estar totalmente livre para tender a Deus, posto que cuida das coisas do Senhor, procurando como agradar a Deus (1 Cor 7,32), oferecendo seu corpo como hóstia viva, Santa, agradável a Deus (Rom 12,1). Este voto de castidade, plenamente vivido, é o que constitui a pureza triunfal, que tende com todas suas forças a Deus, sacrifica gozosamente seus afetos carnais entregando-se ao Jesus Cristo e a Ele ordena todos seus amores. Fruto desta consagração é um senhorio sobre todas as coisas, junto com uma vontade libérrima, pronta para agradar só a Deus.

[57]   Este voto dá ao religioso, além disso, uma grande fecundidade espiritual, já que é Deus mesmo quem fecunda e vivifica o coração de quem, pela virgindade, assemelha-se aos anjos e aos ressuscitados, que não tomarão mulheres nem maridos… sendo filhos da ressurreição (Lc 20,35-36).

[58]   “Só o amor de Deus chama em forma decisiva à castidade religiosa. Este amor exige imperiosamente a caridade fraterna, que o religioso viverá mais profundamente com seus contemporâneos no Coração de Cristo… Sendo decididamente positiva, a castidade testemunha o amor preferencial para o Senhor e simboliza da forma mais eminente e absoluta o mistério da união do Corpo Místico a sua Cabeça, da Esposa a seu eterno Esposo. Finalmente, ela alcança, transforma e penetra o ser humano até o mais íntimo mediante uma misteriosa semelhança com Cristo”[75].

[59]   Devemos desejar sempre a castidade vitoriosa, triunfal, já que a vitória pode dar-se em diversos graus: substancial, quer dizer, eliminando o pecado grave; perfeita, ou seja, eliminando inclusive os pecados menores; triunfal, ou perfeitíssima, que se obtém não só fugindo do pecado com a máxima delicadeza, senão indo mais além, ou seja, superando a mera eliminação do pecado, o qual, por sua vez, pode fazer-se ou quanto à prontidão (eliminando toda discussão ou compromisso com a tentação, o qual implica a imediatez e radicalidade da vitória) ou quanto à totalidade (imolação do coração e negação da paixão, inclusive em seus aspectos indiretos – beleza vã, amor natural, etc.– relacionados com os sentidos e o sexo, mas não estritamente pecaminosos por si). Esta superioridade de delicadeza, de prontidão e sobre tudo de totalidade na negação da esfera sexual é a característica própria do modo religioso da castidade em relação a natural tendência, que não se exclui. Esta renúncia da vontade pode ser de dois modos:

     - negativa, quer dizer, como pura mortificação dolorosamente suportada;

     - positiva, como desejado e alegre sacrifício para obter a íntima união com Deus daquele matrimônio espiritual e virginal que caracteriza, segundo São Paulo[77], a vida consagrada, no qual o coração não fica sufocado, senão entregue, feito sagrado. Somente esta última atitude é digna do estado religioso. Entrega-a amorosa que implica deve ser gozosa, para submergir-se na esfera espiritual do divino amor, que é o fim da virgindade.

Artigo 3 : O voto de pobreza

[60]   Nosso Senhor, Caminho que devemos seguir[78] e exemplo que devemos imitar[79], sendo rico se fez pobre por amor de vós, para que fôsseis ricos por sua pobreza (2 Cor 8,9). E em sua pregação nos ensina: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos Céus (MT 5,3), e para quem quer alcançar a perfeição convida: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me! (MT 19,21).

[61]   Esta pobreza evangélica consiste no abandono voluntário das riquezas e dos bens exteriores deste mundo com o fim de procurar unicamente a Deus. É, em palavras de São Jerônimo, “seguir nu a Cristo nu”[80].

[62]   Mas a perfeição da pobreza evangélica não reside simplesmente na mera carência de riquezas ou bens materiais (pobreza efetiva), senão no desprendimento e desapego voluntário das mesmas (pobreza afetiva): Tudo o tenho por perda a causa do sublime conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cujo amor todo o sacrifiquei e o tenho por lixo, com tal de ganhar em Cristo (Fl 3,8).

[63]   O conselho evangélico de pobreza, a imitação de Cristo, implica uma vida pobre de fato e de espírito, esforçadamente sóbria e desprendida das riquezas terrenas, e leva consigo a dependência e a limitação no uso e disposição dos bens, segundo as Constituições. Graças a esta renuncia aos bens temporários, o voto de pobreza[81] se volta um culto incessante à divina Providência, já que se tem a certeza de que “o perigo corporal não ameaça àqueles que, com a intenção de seguir a Cristo, abandonam todas suas coisas, confiando-se à divina Providência”[82]. Aquele Pai cheio de bondade que se ocupa dos pássaros e das flores do campo[83], não abandonará aos que com tanta confiança se entreguem a Ele.

[64]   Do mesmo modo, a prática deste voto constitui o máximo sinal de humildade: “naquele que é voluntariamente pobre, assim como foi Cristo, a mesma pobreza é indício de máxima humildade”[84].

[65]   Por outro lado, a pobreza assumida por Cristo aumenta a liberdade de espírito e o espírito de príncipe que por sua consagração deve possuir o religioso: “...é um bem que encerra todos os bens do mundo. É uma grande soberania; afirmo que se assenhoreia de todos os bens quem nenhum caso faz de os deixar”[85].

[66]   Daqui que o religioso não deva servir-se de coisa alguma como se fosse de sua propriedade ou com o coração apegado a isso, não dispondo de nada sem permissão do Superior, e vivendo sempre pobremente. Deste modo se imitará melhor ao Jesus Cristo “pobre em seu nascimento, mais pobre em sua vida e paupérrimo na Cruz”[86].

[67]   Ensina Nosso Senhor Jesus Cristo: vendei vossos bens… fazei bolsas que não se desgastem… ajuntai um tesouro inesgotável no céu… onde está o teu  tesouro, lá também está teu coração (Mt 6,20-21). Estas palavras ressoaram um dia em nosso coração e decidimos, por graça do Espírito Santo, seguir a Cristo pobre mediante o voto de pobreza. A pobreza religiosa pode praticar-se com maior ou menor perfeição. Há quatro graus principais:

     1.  Abster-se de possuir algo como se fora próprio ou de fazer sem permissão qualquer ato de propriedade: é a matéria obrigatória do voto, cujo descumprimento, por pequeno que seja, constitui sempre pecado, grave ou leve segundo os casos.
     2.  Privar-se do supérfluo (até da aparência de luxo ou riqueza), contentando-se com o necessário, sem que o coração se apegue a isso. Seu descumprimento não quebraria o voto, mas sim a virtude da pobreza.
     3.  Preferir para seu uso  escolher, quando se possa, o de menos valor, o menos agradável, o mais incômodo. Aceitar com gosto, e até pedir, os ofícios mais baixos, os destinos mais difíceis… o que nos faz  parecer mais aos pobres. Logo aqui começa a perfeição da pobreza.
     4.  Aceitar com alegria, por amor a Deus, as privações, até nas coisas necessárias, pela Santa pobreza. Gloriar-nos como São Paulo na fome e sede, nas privações de todo gênero, no frio e nudez (2 Cor 11,27). De São Francisco de Assis se dizia que “ninguém tão ambicioso de ouro como ele zeloso da pobreza…”[87]. Este grau constitui a perfeição da pobreza.

[68] Todavia pode praticar-se mais intensamente o quarto grau de pobreza, conquistando assim o desprendimento total, não só dos bens materiais - objeto próprio da virtude da pobreza - mas também de tudo que não seja o mesmo Deus, o que supõe a perfeição da caridade e a santidade completa e consumada. Como diz São João da Cruz, “amar é despojar-se por Deus de tudo o que não é Deus”[88].

Já não lhe importará nada
     - da estima e boa opinião dos homens,
     - da saúde e forças corporais,
     - dos cargos ou ofícios que possam lhe dar ou lhe tirar,
     - dos sucessos prósperos ou adversos que possam acontecer,
     - de morrer jovem ou velho.
“Viva como se não houvesse neste mundo mais que Deus e ela (a alma), para que não possa seu coração ser detido por coisa humana”[89]. E “nada, nada até deixar a pele e o restante por Cristo”[90], “… Quando com próprio amor não o quis, deu-se-me tudo sem ir atrás disso… depois que me coloquei em nada, achei que nada me falta”[91]. Em definitiva, devemos amar tudo o que Deus quer que amemos, sem ser escravos de nossos afetos às criaturas, quer dizer, amar sem encadear-nos, possuir sem ficar presos, usar sem gozos egoístas, conservar a completa independência, buscar em tudo e por tudo a glória de Deus.

[69]   Fazemos nossa a instrução que deu Frei Francisco dos Anjos aos doze apóstolos do México, prevenindo-lhes que irão “à vinha, não alugados por preço algum, como outros, mas sim como verdadeiros filhos de tão grande Pai, buscando não vossas próprias coisas, senão as que são de Jesus Cristo… O qual desejou ser tido como o último e o menor dos homens, e quis que vós, seus verdadeiros filhos fossem últimos, escoiceando a glória do mundo, abatidos por vileza, possuindo a altíssima pobreza, e sendo tais que o mundo vos tivesse em escárnio e vossa vida julgasse por loucura, e seu fim sem honra: para que assim feitos loucos ao mundo convertêsseis a esse mesmo mundo com a loucura da pregação. E não vos turvem porque não sois alugados por preço algum, mas antes enviados sem promessa de salário”[92].

[70]   Os membros do Instituto, com o voto de pobreza, conservam a capacidade de ter bens patrimoniais, mas antes de emitir os votos temporários, os membros devem ceder a administração dos próprios bens patrimoniais e livremente dispor de seu uso e usufruto.

     Aspiramos a viver a pobreza em grau máximo, e para isso antes da profissão perpétua se fará testamento válido segundo o direito civil, renunciando a todos os bens a favor do Instituto, conforme ao cânon 668, Inc. 1: “… antes, ao menos, da profissão perpétua, (os membros) farão testamento que seja válido também segundo o direito civil”.

     Tudo o que um irmão ganhe com seu próprio trabalho ou por razão do Instituto, como o que perceba em conceito de pensão, subvenção, ou seguro, adquire-o para o Instituto.     

     Antes da profissão perpétua, todo irmão renuncia totalmente a seus bens, de maneira que dita renuncia tenha efeitos, a partir do dia da profissão e seja válida também, se for possível, no direito civil.
Para modificar estas disposições com causa justa se requer licença do Superior Provincial.

     O professo que tenha renunciado a todos seus bens perde a capacidade de adquirir e possuir, pelo que são nulos seus atos contrários ao voto de pobreza. O que adquira depois da renúncia pertencerá ao Instituto.[93]

[71]   O Instituto deve proporcionar a seus membros todos os meios necessários segundo as Constituições, para alcançar o fim de sua vocação[94].

Artigo 4: O voto de obediência

[72]   Seguindo o exemplo do Verbo Encarnado, os membros do Instituto se entregam a Deus totalmente pelo voto de obediência, mediante o qual o religioso faz dom de sua vontade.

[73]   …aprendeu por seus padecimentos o que é a obediência (Hb 5,8). “Diz aprendeu o que é a obediência, isto é, quão grave é obedecer, porque Ele mesmo obedeceu nas coisas mais graves e mais difíceis: até a morte de cruz[95]. E assim mostra quão difícil é o bem da obediência. Porque os que não são vigilantes na obediência, e não a aprenderam nas coisas mais difíceis, acreditam que obedecer é muito fácil. Mas para que saibas o que é a obediência, é necessário que aprenda a obedecer nas coisas mais difíceis, e o que não aprende obedecer estando submetido, jamais saberá mandar bem quando dever mandar”[96]. Por isso, obedeças ao que obedece e será bom o que mandes.

[74]   Com o voto de obediência se obriga a submeter a própria vontade aos Superiores legítimos, que fazem as vezes de Deus quando mandam algo segundo as Constituições[97]. Compromete-se o religioso a obedecer em todo o referente à vida religiosa e apostólica ao Superior, imitando nisto a Jesus Cristo, feito obediente até a morte e morte de cruz (Fl 2,8). Desta maneira o religioso se faz dócil ao Espírito Santo e tem constantemente a alma pronta para tudo o que Deus disponha: Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e vos admoestar. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. (1 Tes 5,12-13).

[75]   No Superior o religioso deve ver a quem faz as vezes de Jesus Cristo, como nos ensina: Sede submissos e obedecei aos que vos guiam(pois eles velam por vossas  almas e delas devem dar conta).Assim, eles o farão com alegria,e não a gemer,que isto vos seria funesto. (Heb 13,17). Tal obediência é o elemento essencial da vida religiosa, já que o estado religioso é uma aprendizagem e exercício para alcançar a perfeição, e nesta aprendizagem se requer a submissão à direção de outro. Este voto oferece a Deus o bem mais excelente, que é a própria vontade, contém aos outros votos, que se realizam por obediência, e se refere propriamente aos atos mais relacionados com o fim da vida religiosa, posto que ninguém é religioso sem este voto, embora tenha feito os outros[98].

[76]   Alguns, desgraçadamente, movidos por espírito próprio, carnal ou mundano, não obedecem bem: “Não poucos vivem sob obediência mais por necessidade que por caridade; estes tais se sentem habitualmente afligidos e com facilidade se entregam à murmuração. E é evidente que não conseguirão a liberdade de espírito, a menos que se submetam de todo coração, por amor a Deus”[99]. E ao subtrair-se da obediência se subtraem da graça: “quem trata de subtrair-se ao jugo da obediência se subtrai pelo mesmo à ordem da graça; e o que deseja ter um bem individual mal consegue o coletivo. O que não se sujeita com gosto e espontaneamente à autoridade demonstra que tampouco sua carne lhe obedece perfeitamente, senão que muitas vezes se mostra recalcitrante e murmura. Aprende, pois, a submeter-te com presteza a seu superior, se queres sujeitar tua própria carne”[100]. Não devemos nos esquecer nunca que “a obediência é o aroma do sacrifício… Embora verdadeiramente os Superiores fossem por si mesmos ineptos para a altura de seu cargo; defeituosos - dito seja unicamente para fazer-me compreender - e até repugnantes; adquirir-se-ia um mérito maior, estar-se-ia mais seguros de obedecer a Deus ao obedecer-lhes. Porque os defeitos dos Superiores fazem imensamente mais meritória e grata a Deus a obediência: pois não se devem absolutamente ter em conta as qualidades humanas ao obedecer, nem se a ordem é racional, mas sim que a obediência é racional. Se pusermos como base de nossa submissão a racionalidade do ordenado se destrói a mesma obediência. Nós devemos nos aniquilar aos pés da Igreja e dos Superiores e obedecer por amor a Cristo e ser como trapos… que ninguém jamais nos supere em obediência filial, em obsequiosidade e amor ao Papa e aos Bispos, a quem o Espírito Santo colocou para governar a Igreja de Deus”[101]. O mesmo ensina São João da Cruz: “Jamais olhes ao prelado considerando-o menos que a Deus, seja o prelado que for, tenha-o em seu lugar. E adverte que aqui o demônio coloca muito a mão. Olhando assim ao prelado é grande o lucro e o aproveitamento, e sem isto é grande a perda e o dano. E assim, com grande vigilância, velai para que não os olheis em sua condição, nem em seu modo, nem em seu aspecto, nem suas outras maneiras de proceder; porque te fará tanto dano, que trocarás a obediência de divina para humana. Assim acabarás movendo-te ou não apenas pelos modos visíveis no prelado, e não pelo Deus invisível, a quem serves nele… se isto não fazes com força, de maneira tal que não se te de  por prelado mais a um que a outro, pelo que a teu particular sentimento toca , de nenhuma maneira poderás ser espiritual nem guardar bem seus votos”[102].

[77]   Se fôssemos religiosos verdadeiramente obedientes, se cumpriria o que diz São João Bosco: “Se cumprirem a obediência do modo indicado lhes posso assegurar, em nome do Senhor, que passareis na congregação uma vida tranqüila e feliz. Mas ao mesmo tempo devo lhes advertir que desde dia em que, deixando de lado a obediência obreis apenas  segundo vossos caprichos, começareis a sentir-vos pesarosos de vosso estado. Se nas várias congregações religiosas se acham descontentes e até há alguns para quem a vida  comunitária é de grande peso, observe-se com atenção, e se verá que isto provém da falta de obediência”[103]. Devemos gravar em nosso coração a máxima de São Francisco de Sales: “Tudo é seguro na obediência e tudo é suspeito fora dela”[104].

[78]   Esta obediência implica três graus:

         - Primeiro grau: acima de tudo, obediência de execução, que consiste em realizar a ordem mandada, mesmo sem submissão interna.

         - Segundo grau, obediência de vontade, ou seja, a submissão interior, que acomoda a vontade do inferior a do superior sem dificuldade, com amor e valentia.

         - Terceiro grau, obediência de juízo, pela qual se conforma o juízo interior com o do superior, rendendo também nossa inteligência, exceto o caso em que o contrário se manifeste com certeza evidente.

[79]   Esta obediência é justamente o contrário, tanto da obediência “crítica”, que obedece em meio da murmuração e da queixa, e do “espírito de oposição”, que forma grupos ou bandos de oposição a respeito do que ordene o superior, como do servilismo e a obediência farisaica, que com mistura de covardia e hipocrisia, mostra uma vontade vencida mas não submissa , e inclusive pretendendo levar o superior àquilo que o súdito busca.

[80]   Além da dependência e submissão que estamos obrigados pelo Batismo a respeito do Pontífice Romano, obrigamo-nos, em virtude do voto de obediência, a obedecer-lhe por um novo título, como a nosso Superior Supremo, conforme ao cânon 590, Inc. 2: “Cada um de seus membros está obrigado a obedecer ao Sumo Pontífice, como a seu Superior Supremo, também em virtude do vínculo sagrado da obediência”.
         - Os membros estão sujeitos à potestade dos Bispos[105], aos quais têm que seguir com piedosa submissão e respeito no que se refere ao cuidado das almas, ao exercício público do culto divino e a outras obras de apostolado. No exercício do apostolado externo, os religiosos estão sujeitos também a seus Superiores próprios e devem permanecer fiéis à disciplina do Instituto; os Bispos não deixarão de urgir esta obrigação quando for o caso. Ao dirigir as obras de apostolado dos religiosos, os Bispos diocesanos e os Superiores religiosos devem proceder de comum acordo[106].

[81]   Será sempre excepcional o mandar “baixo obediência” e só terá valor quando o Superior legítimo o faça por escrito ou diante de duas testemunhas. Considera-se que os Superiores mandam em virtude do voto ao empregar fórmulas como: “em virtude da Santa obediência”, “baixo preceito formal” ou outras semelhantes, ou quando na maneira de ordenar ou outras circunstâncias se manifesta claramente que esse é seu desejo.

Artigo 5: Consagração a Maria

[82]     Este quarto voto que fazemos, junto aos de castidade, pobreza e obediência, implica uma total entrega a Maria para servir melhor a Jesus Cristo. Por isso implica um duplo aspecto:

A. Materna escravidão de amor

[83]   Esta consagração a Maria é feita como “materna escravidão de amor”, segundo o modo admiravelmente exposto por São Luis Maria Grignion de Montfort. Tal escravidão é chamada por ele “escravidão de vontade” ou “de amor”[107], já que livre e voluntariamente, só movida pelo amor, fazemos oferenda de todos nossos bens e de nós mesmos a Maria, e por Ela a Jesus Cristo. Isto não é mais que renovar de maneira mais plena e conscientemente, as promessas feitas no Batismo, no qual fomos revestidos de Cristo[108], e na profissão religiosa. E, além disso, por esta escravidão de amor se faz patente o domínio e a providência maternal que tem Maria sobre todas as coisas, mas especialmente sobre as almas fiéis, segundo o qual expressa São Boaventura: “Escrava de Maria Rainha é qualquer alma fiel, inclusive a Igreja universal”[109]. E afirma João Pablo II: “… a entrega a Maria tal como apresenta São Luis Maria Grignion de Montfort é o melhor meio de participar com proveito e eficácia desta realidade para extrair dela e compartilhar com outros as riquezas inefáveis… Vejo nisso (a escravidão de amor) uma espécie de paradoxo das que tanto abundam nos Evangelhos, em que as palavras ‘Santa escravidão’ podem significar que nós não saberíamos explorar a fundo nossa liberdade… Porque a liberdade se mede com a medida do amor de que somos capazes”[110].

[84]   Por esta escravidão de amor, não só oferecemos a Cristo por Maria nosso corpo, nossa alma e nossos bens exteriores, senão inclusive nossas boas obras, passadas, presentes e futuras, com todo seu valor satisfatório e meritório, a fim de que Ela disponha de tudo segundo seu beneplácito[111], seguros de que por Maria, Mãe do Verbo Encarnado, devemos ir a Ele, e que Ela há formar “grandes Santos”[112].

B. Marianizar a vida

[85]   Fruto de consagração a Santíssima Virgem e conseqüência natural é o marianizar toda a vida. Para isso é preciso, em primeiro lugar, fazer tudo por Maria, o qual nos indica o meio, e tal é a fusão de intenções. Nada terá que a Mãe de Deus se reserve para si, mas sim em tudo nos diz e ensina como aos servidores de Caná, fazei tudo o que Ele vos disser. (Joa 2,5).

[86]   Em segundo lugar, terá que fazer tudo com a Maria, no qual se expressa a companhia e o modelo que deve guiar “todas nossas intenções, ações e operações”[113], posto que Ela é a obra mestra de Deus. Aqui, pois, nos mostra o que devemos imitar. Se o Apóstolo dizia Tornai-vos os meus imitadores como eu o sou de Cristo (1 Cor 11,1), com maior razão poderá afirmar-se isto da Virgem, em quem tem feito maravilhas o Todo-poderoso, cujo Nome é santo![114] “Enquanto que a Igreja na Santíssima Virgem já chegou à perfeição, por isso se apresenta sem mancha nem ruga, os fiéis… levantam seus olhos para Maria, que brilha ante toda a comunidade dos eleitos como modelo de virtudes”[115].

[87]   Em terceiro lugar, é necessário obrar em Maria, vale dizer, em íntima união com Ela, e com isto se mostra a permanência e unidade que tem que dar-se entre o consagrado e a Mãe de Deus.O que ama está no amante: tal é a propriedade do amor ardente, que tende de sí a uma mútua compenetração, cada vez mais profunda e mais sólida. Deste modo se imita ao Verbo Encarnado, que quis vir ao mundo e habitar no seio da Maria durante nove meses, e se faz efetivo seu mandato e doação póstuma: Disse ao discípulo: Eis aqui a sua Mãe. E desde àquela hora o discípulo a recebeu em sua casa (Jo 19,27).

[88]   Finalmente, é preciso fazer tudo para  Maria. A Santíssima Virgem, subordinada sempre a Cristo segundo o desígnio eterno do Pai, deve ser o fim ao qual se dirijam nossos atos, o objeto que atraia o coração de cada consagrado e o motivo dos trabalhos empreendidos. Maria é “o fim próximo, o centro misterioso e o meio mais fácil para ir a Cristo”[116].

[89]   Todo fiel escravo de Jesus em Maria deve, portanto, invocá-la, saudá-la, pensar Nela, falar Dela, honrá-la, glorificá-la, recomendar-se a Ela, gozar e sofrer com Ela, trabalhar, orar e descansar com Ela e, enfim, desejar viver sempre por Jesus e por Maria, com Jesus e com Maria, em Jesus e em Maria, para Jesus e para Maria.




[66] Cf. LG, 44.

[67] São Gregório Magno, In Evang., L. 1, Hom. 3: ML 76,1089.

[68] Cf. São Tomás de Aquino, S. Th., II-II, 186, 7.

[69] Cf. 1 Jo 2,16.

[70] Santo Ambrósio, Tratado sobre o Evangelho de São Lucas, L. IV, nº 35.

[71] Cf. Mt 6,1-4.

[72] Cf. Mt 6,16-18.

[73] Cf. Mt 6,5-13.

[74] Santo Tomás de Aquino, S. Th., II-II, 83, 3.

[75] Cf. CIC, c. 599

[76] Paulo VI, Exortação Apostólica sobre a renovação da vida religiosa segundo os ensinamentos do Concílio Evangelica Testificatio (29/06/1971), 13.

[77] Cf. 1 Cor 7.

[78] Cf. Jo 14,6.

[79] Cf. 1 Pe 2,21

[80] Ad Rusticum Monachum, Ep. 125: ML 22,1085.

[81] Cf. CIC, c. 600

[82] São Tomás de Aquino, S. Th., II-II, 186, 3, ad 2.

[83] Cf. Mt 6,25-34.

[84] São Tomás de Aquino, S. Th., III, 40, 3, ad 3.

[85] Santa Teresa de Jesus, Caminho da Perfeição, cap. II, nº 5.

[86] São Bernardo, Vitis mystica, cap. II.

[87] Tomás de Celano, Vida de São Francisco, Vida Segunda, Ed. BAC, Madrid 1975, p. 375.

[88] Subida ao Monte Carmelo, L. II, cap. 5, 7.

[89] São João da Cruz, Ditos de luz e amor, 143.

[90] São João da Cruz, Avisos e Sentenças espirituais, 68, 4.

[91] São João da Cruz, Monte de Perfeição, Obras Completas, Ed. BAC, Madrid, 1982, p. 74

[92] Frei Jerônimo de Mendieta História Eclesiástica Indiana, México 1945, L. III, cap. 9.

[93] Cf. CIC, c. 668

[94] Cf. CIC, c. 670

[95] Cf. Fl 2,8.

[96] Santo Tomás de Aquino, Super Ep. ad Hebraeos Lectura, V, 8, lectio II, nº 259, Ed. Marietti.

[97] Cf. CIC, c. 601

[98] Cf. Santo Tomás de Aquino, S. Th., II-II, 186, 8.

[99] Tomás de Kempis, Imitação de Cristo, L. I, cap. 9.

[100] Ibidem, L. III, cap. 13.

[101] São Luís Orione, Carta sobre a obediência  aos religiosos da Pequena Obra da Divina Providência, Epifania de 1935, Cartas de Don Orione, Ed. Pío XII, Mar do Prata 1952.

[102] Cautelas 12, Segunda cautela contra o demônio.

[103] Regras ou constituições da Sociedade de São Francisco de Sales, VIII.

[104] Tratado do amor de Deus, VI, 13.

[105] Cf. CIC, c. 305, 1.

[106] Cf. CIC, c. 678.

[107] VD, nnº 70, 72.

[108] Cf. Gal 3,27.

[109] Speculum Beatae Mariae Virginis, lect. III, nº 5.

[110] Citado por André Frossard em Não tenhais medo, Ed. Praça e Janes, Barcelona 1982, p. 131-132.

[111] Cf. VD, nnº 121-125.

[112] Ibidem, 47.

[113] Cf. EE, [46].

[114] Cf. Lc 1,49.

[115] VD, nº 265.

[116] VD, nº 265.