PARTE III
ESPIRITUALIDADE
[36] Introdução. Nossa espiritualidade quer estar ancorada no mistério sacrossanto da Encarnação, o mistério do Verbo feito carne no seio da Santíssima Virgem Maria. De modo tal que podemos dizer que nossa espiritualidade se deriva da Pessoa do Verbo e de sua Mãe, para que, no Espírito Santo, possamos unir-nos ao Pai. Da explanação do mistério do Verbo encarnado brotam todos os princípios da vida espiritual de nosso Instituto, conforme consta no Diretório de Espiritualidade.
[37] Primazia de Jesus Cristo. Em nossas vidas e ações deve sobressair “o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino e o mistério de Jesus de Nazaré Filho de Deus” [53], de tal maneira vividos que não devemos antepor nada a seu amor.
[38] Preexistência da pessoa do Verbo. Confessando a eternidade, distinção e divindade da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, queremos alimentar nosso desejo de abandonar-nos inteiramente à vontade de beneplácito de Deus, nosso amor à Trindade e aos homens criados por Deus a sua imagem e semelhança[54].
[39] O mistério do Verbo Encarnado. Sua Primeira Vinda obrada pelo Espírito Santo nas entranhas da Virgem nos deve levar a suma docilidade ao mesmo Espírito e amor íntimo a sua Mãe e nossa Mãe. Apoiados no mistério da Encarnação, obrado pelo Espírito na Virgem Maria, devemos cantar sempre as misericórdias de Deus[55] porque “pela Encarnação do Verbo se faz acreditável a imortalidade da felicidade”[56], devemos ter clara consciência de que sem Jesus Cristo nada podemos[57], e devemos inclinar, com todas nossas forças, a adiantar sempre na virtude.
[40] Jesus Cristo é o “Caminho” para ir ao Pai e ninguém vai ao Pai senão por Ele[58]. Tem o único nome pelo qual podemos ser salvos (At. 4,12). É o que faz que a Igreja seja um “sacramento, ou seja, sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano” [59]. É o que sustenta todos os dogmas da Igreja, já que é “a verdade que inclui todas as demais”[60]. É o que nos mostra a primazia e o peso da eternidade sobre toda realidade temporal. Saber que Jesus é verdadeiro Deus nos deve mover a praticar as virtudes da transcendência: fé, esperança e caridade, a dar importância insubstituível à vida de oração e à necessidade das purificações ativas e passivas do sentido e do espírito. O fazer-se homem é “o primeiro e fundamental mistério de Jesus Cristo”[61] e “Deus não esteve nunca tão próximo do homem –e o homem jamais esteve tão próximo a Deus– como precisamente nesse momento: no instante do mistério da Encarnação”[62]. Saber que Jesus é verdadeiro homem nos deve mover a considerar que nada do autenticamente humano nos é estranho sabendo-o assumir[63], a amar nele a todo homem e a todo o homem, a praticar as virtudes mortificativas do aniquilar-se. Saber que nele se unem indissoluvelmente ambas naturezas nos deve mover a reconhecer a dupla realidade de graça e natureza, sem mistura do mal, a praticar as virtudes aparentemente opostas, sem cair em falsos dualismos, o superior assumindo o inferior. Saber procurar sempre a maior gloria de Deus e a salvação dos homens, que é o fim da Encarnação.
[41] Sua Vida terrena. Desde o mesmo instante da encarnação nos dá exemplo de entrega sacerdotal ao Pai, que devemos imitar; no seio de Maria já estamos presentes pelo princípio de koinonía nos ensinando a depender totalmente de sua Mãe; em sua Vida oculta nos ensina a crescer, a trabalhar, a fazer silêncio, a estar sujeitos[64], a viver com alegria festiva[65]; todas suas palavras e todas suas ações são alimento para nossa espiritualidade.
[42] Sua saída deste mundo. De maneira especial, o mistério Pascal de nosso Senhor é fonte inesgotável de espiritualidade. Sua Paixão, Morte, descida aos infernos, Ressurreição, devem iluminar sempre as nossas vidas. Devemos ser especialistas na sabedoria da cruz, no amor à cruz e na alegria da cruz.
[43] Sua Vida gloriosa. O fato esplêndido de que Cristo ressuscitou nos deve levar a viver como ressuscitados, a viver segundo a Nova Lei –o Espírito Santo–, a liberdade dos filhos de Deus própria do homem novo, com imensa alegria, em especial no domingo, sabendo fazer festa, com grande compromisso pela missão.
[44] Sua Vida mística. É a maravilha da Igreja, Corpo de Cristo, alimentada pela Palavra de Deus, Una, Santa, Católica – missionária e ecumênica–, Apostólica, enriquecida e apoiada nas três coisas brancas.
[45] Sua segunda Vinda. A certeza de que o Senhor está vindo e que até Ele estamos caminhando. Um dia voltará em poder e majestade, ressuscitará aos mortos, presidirá o juízo final e a inovação do universo.
[46] Todas as outras partes das Constituições estão inspiradas no Diretório de Espiritualidade e se entendem à luz do mesmo. Quisemos dar uma preponderância absoluta à parte espiritual porque entendemos que assim o pede nosso carisma, de tal modo que deve considerar-se como texto doutrinal que sirva de fundamento para os artigos constitucionais e ponto de referência para as possíveis modificações que os tempos vão exigindo e para aplicar as Constituições às novas circunstâncias.
[47] Enfim, quiséramos que nossa espiritualidade pudesse ser sintetizada assim:
Não Jesus ou Maria; não Maria ou Jesus.
Nem Jesus sem Maria; nem Maria sem Jesus.
Não só Jesus, também Maria;
nem só Maria, também Jesus.
Sempre Jesus e Maria; sempre Maria e Jesus.
A Maria por Jesus: Eis aí a tua Mãe (Jo 19,27).
A Jesus por Maria: Fazei tudo o que Ele vos disser (Jo 2,5).
Primeiro, Jesus, o Deus-homem;
mas logo Maria, a Mãe de Deus.
Ele, Cabeça; Ela Pescoço; nós, Corpo.
Tudo por Jesus e por Maria; com Jesus e com Maria;
em Jesus e em Maria; para Jesus e para Maria.
Enfim, simplesmente: Jesus e Maria; Maria e Jesus.
E por Cristo, ao Pai, no Espírito Santo.
[53] Paulo VI, Evangelii nuntiandi,nº 22.
[56] Santo Agostinho, De Trinitate, XIII, 9.
[60] João Paulo II, Alocução, na visita ao Pontifício Ateneo Antonianum de Roma, aos professores e alunos (16/01/1982), 5; OR (31/01/1982), p. 19.
[61] João Paulo II, Alocução Dominical (06/09/1981), 1; OR (13/09/1981), p. 1.
[62] João Paulo II, Alocução Dominical (02/08/1981), 2; OR (09/08/1981), p. 1.
[63] “O que não foi tomado tampouco foi redimido”,cf. AG 3, nota 15.
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