PARTE II

NATUREZA E FIM DO INSTITUTO

Artigo 1: Natureza

[20]   Em nome de Cristo queremos constituir uma família religiosa em que seus membros estejam dispostos a viver com todo radicalismo as exigências da Encarnação e da Cruz, do Sermão da Montanha e da Última Ceia. Onde se possam viver os aniquilamentos de Nazaré e do Calvário, onde se entre nas confidências do Tabor e do Getsêmani. Onde se experimente a paternidade do Pai, a irmandade do Filho e a inhabitação do Espírito Santo, amando-nos de tal maneira uns aos outros por sermos filhos do mesmo Pai, irmãos do mesmo Filho e templos do mesmo Espírito Santo, que formemos um só coração e uma só alma (At 4,32).

[21]   Aspiramos a consagrar-nos a Deus pela profissão dos conselhos evangélicos, formando um instituto religioso, emitindo votos públicos, vivendo uma vida fraterna em comum, num lugar retirado, próprio dos religiosos, de tal modo que todos os membros possam tender à perfeição de seu estado[28]. Mas sem excluir a possibilidade de que se integrem harmoniosamente a nossa família, religiosos que não sejam sacerdotes, como do mesmo modo, ter unidos a nós associações de fiéis que queiram viver em genuíno espírito de família segundo sua vocação laical[29].

[22]   Queremos dedicar-nos às obras de apostolado, imitando a Cristo que “anunciava o Reino de Deus”[30], sob a direção de clérigos e assumindo o exercício da Ordem sagrada[31]. Alguns membros de nosso Instituto levam uma vida exclusivamente contemplativa, ou monástica ou eremita. Deste modo não excluímos a possibilidade de que alguns dos membros da rama apostólica possam levar por um tempo determinado um tipo de vida mais contemplativa, já que “um momento de verdadeira adoração tem mais valor e fruto espiritual que a mais intensa atividade, embora se tratasse da mesma atividade apostólica”[32].

Artigo 2: Fim comum, próprio e específico

[23]   Como todo Instituto de vida consagrada, tanto religioso como secular[33], temos um fim universal e comum –que denominamos vocação– pelo que queremos seguir mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, nos dedicando totalmente a Deus como a nosso amor supremo, para que entregues por um novo e peculiar título a sua glória, à edificação da Igreja e à salvação do mundo, consigamos a perfeição da caridade, e pela caridade que conduz a profissão dos conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência, unir-nos de modo especial à Igreja e a seu mistério[34].

[24]   Deste modo tendemos ao fim próprio de todo Instituto de vida religiosa, o qual não é outro que a consagração total de nossa pessoa, manifestando o desposório admirável estabelecido por Deus na Igreja, sinal da vida do Céu. Assim consumaremos a plena doação de nós mesmos como sacrifício devotado a Deus, pelo qual toda nossa existência se faz culto contínuo a Deus na caridade.

[25]   Isto se manifesta em que formamos uma família[35], emitimos votos públicos e vivemos vida fraterna
em comum; e o testemunho público que devemos dar implica um afastamento do mundo[36]. Para viver segundo o Espírito Santo, necessariamente terá que se separar do espírito do mundo: O Espírito da verdade… o mundo não o pode receber, porque não lhe vê nem lhe conhece (Jo 14,17).

[26]   Finalmente queremos, como fim específico e singular, dedicar-nos à evangelização da cultura, quer dizer, trabalhar para “transformar com a força do Evangelho
     
     -os critérios de julgamento,
     -os valores determinantes,
     -os pontos de interesse,
     -as linhas de pensamento,
     -as fontes inspiradoras,
     -os modelos de vida da humanidade “[37];

“para que estejam imbuídos da força do Evangelho

     -os modos de pensar,
     -os critérios de juízo,
     -as normas de ação “[38],

pois não podemos esquecer que o Concílio Vaticano II assinalou que: “O divórcio entre a fé e a vida diária de muitos deve ser considerado como um dos mais graves enganos de nossa época”[39] e isso se deve em grande medida a que o mundo “se foi separando e distinguindo, nestes últimos séculos, do tronco cristão de sua civilização”[40], o qual conduziu a descristianização da cultura.

[27]   Para isso tomamos, especialmente, como elementos fundamentais para permear com o Evangelho as culturas, os ensinamentos da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II[41]; as Exortações Apostólicas Evangelii nuntiandi[42] e Catechesi Tradendae[43]; o discurso do Papa João Paulo II a UNESCO[44] e outros sobre o mesmo tema[45]; o Documento de Puebla[46], a Carta Encíclica Slavorum Apostoli, a Carta Encíclica Redemptoris missio, a Exortação Apostólica Postsinodal Pastores dabo vobis, N. 55, c; e todas as futuras diretivas, orientações e ensinamentos do Magistério ordinário da Igreja que possam dar-se no futuro sobre o fim específico de nossa pequena família religiosa.

[28]   Desde já expressamos que desejamos obter a mais filial e fraterna relação com o Conselho Pontifício para a Cultura, em ordem a obter uma maior e melhor concreção da finalidade do Instituto.

Artigo 3: Índole

 [29]  Consideramos que alguns dos meios mais importantes para alcançar o fim estabelecido é trabalhar sobre os pontos de inflexão da cultura, ou seja: as famílias, a educação –em especial a seminarística, a universitária e a terciária–, os meios de comunicação social e os homens de pensamento ou “intelectuais”, no que faz à iniciação e chamada, desenvolvimento, discernimento, formação, consolidação, acompanhamento e posterior exercício da vocação ao apostolado intelectual.

Artigo 4: Carisma

[30]   Pelo carisma próprio do Instituto, todos seus membros devem trabalhar, em suma docilidade ao Espírito Santo e dentro da figura de Maria, a fim de conduzir para Jesus Cristo todo o autenticamente humano, até nas situações mais difíceis e nas condições mais adversas.

[31]   Quer dizer, é a graça de saber como obrar, em concreto, para prolongar a Cristo nas famílias, na educação, nos meios de comunicação, nos homens de pensamento e em toda outra legítima manifestação da vida do homem. É o dom de fazer que cada homem seja “como uma nova Encarnação do Verbo”[47], sendo essencialmente missionários e Marianos.

Artigo 5: Missão

[32]   A missão, recebida do fundador, e sancionada pela Igreja, é levar a plenitude as conseqüências da Encarnação do Verbo, que “é o compêndio e a raiz de todos os bens”[48], em especial, ao amplo mundo da cultura, ou seja, à “manifestação do homem como pessoa, comunidade, povo e nação”[49].

Artigo 6: Espírito

[33]   O Espírito que anima ao Instituto desde seus começos e que deve determinar seu próprio rosto dentro da Igreja é o espírito de fé e de amor com o que devem viver todos seus membros o mistério do Verbo Encarnado, e a referência do mesmo a toda criatura: “o Verbo expressa não só ao Pai, mas também a todas as criaturas… (das que) é expressivo e operativo”[50].

[34]   É viver e fazer viver sob a ação do Espírito Santo, sem coações de nenhuma espécie, respeitando escrupulosamente as consciências, promovendo o são pluralismo, levando a viver plenamente a liberdade dos filhos de Deus[51] porque onde está o Espírito Santo, ali está a liberdade (2Cor 3,17). Sem esquecer jamais que o Reino de Deus… é justiça, é alegria e é paz no Espírito Santo (Rm 14,17).

[35] Pouco ou nada nos interessa estender-nos por muitos países ou ter numerosos membros, se perdermos o espírito. Só à Igreja Católica, na pessoa de Pedro e seus sucessores está prometida a infalibilidade e a indefectibilidade. Não perderemos o espírito contanto que sejamos fiéis a Ela e se observe a vontade e intenções do fundador em tudo o que constitui o patrimônio do Instituto[52].




[28] Cf. CIC, c. 598, § 2.

[29] Cf. CIC, c. 677.

[30] CIC, c. 577.

[31] Cf. CIC, c. 588, § 2.

[32] João Paulo II, Discurso aos Superiores Gerais das Ordens e Congregações religiosas (24/11/1978), 4; OR (3/12/1978), p. 10.

[33] Cf. CIC, Normas comunes a todos los Institutos de vida consagrada, cc. 573-606.

[34] Cf. CIC, c. 573.

[35] Cf. CIC, De los Institutos religiosos, cc. 607-709.

[36] Cf. CIC, c. 607.

[37] EN, 19.

[38] João Paulo II, Constitução Apostólica Sapientia Christiana, sobre as Universidades e Facultades Eclesiásticas (15/04/1979), 1; OR (03/06/1979), p. 7.

[39] GS, 43.

[40] ES, 14.

[41] Segunda parte, cap. 2, 53-62.

[42] Cf. EN, 20.

[43] Cf. CT, 53.

[44] Discurso à Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (02/06/1980); OR (15/06/1980), p. 11-14.

[45] Cf. Coferência dos bispos de Zaire reunidos em Kins­hasa (03/05/1980), 4-6; OR (11/05/1980), p. 6, 7; Discurso à Conferên­cia Episcopal no Kenia, Nairobi (07/05/1980), 6; OR (18/05/1980), p. 13, 14; Conferência aos Bispos na Catedral de Delhi, Índia (01/02/1986), 5; OR (09/02/1986), p. 4, 5; Conferência aos fiéis durante a Celebração da Palabra, no cam­po de Chambacú, Cartagena, Colômbia (06/07/1986), 7-8; OR (20/07/1986), p. 11, 12.

[46] Cf. 385-443.

[47] Santa Elizabete da Trindade op. cit., Elevação nº 33.

[48] São João Crisóstomo, In Matt. Hom., II, 3.

[49] João Paulo II, Discurso aos homens da cultura em ocasião do jubileo da Redenção (15/12/1983), 3; OR (25/12/1983), p. 6.

[50] Santo Tomás de Aquino, S. Th., I, 34, 3

[51] Cf. Rom 8, 21.

[52] Cf. CIC, c. 578.