PARTE I
INTRODUÇÃO
NOSSA FAMÍLIA RELIGIOSA
PRINCÍPIOS GERAIS
NOSSO "CAMINHO" (CF. AT 9,2)
[1] [Intenção] Confessamos que Deus é o Senhor e Pai de todas as coisas, princípio e fim de todas elas, que seu Filho Jesus Cristo Nosso Senhor se encarnou, morreu e ressuscitou para salvar a todos os homens, que o Espírito Santo é Senhor e doador de vida e que, para glória da Santíssima Trindade, maior manifestação do Verbo Encarnado e honra da Igreja fundada por Cristo “permanece na Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele”[1], queremos dar o “testemunho de que o mundo não pode ser transformado nem oferecido a Deus sem o espírito das bem-aventuranças”[2]. Peçamos a Santíssima Virgem Maria que nos alcance a graça de perseverar neste propósito até a morte.
[2] Desejamos viver em um estado que “imita mais de perto e representa perpetuamente na Igreja aquela forma de vida que o Filho de Deus escolheu ao vir ao mundo…[3], na prática dos conselhos evangélicos, contribuindo assim “para revelar a rica natureza e o dinamismo polivalente do Verbo de Deus encarnado…”[4].
[3] [Nome] Aspiramos que nossa família religiosa se distinga e seja chamada “do Verbo Encarnado” já que nos aproximamos do segundo milênio desse acontecimento, que é maior que a criação do mundo e que não pode ser superado por nenhum outro.
[4] [Fim universal] O fim que nos propomos é duplo. Por um lado, buscar a glória de Deus e a salvação das almas dos nossos irmãos e irmãs – praticando, especialmente, as virtudes que mais nos fazem participar do aniquilamento de Cristo[5].
[5] [Fim específico] Por outro lado, comprometemos todas nossas forças para inculturar o Evangelho, ou seja, para prolongar a Encarnação em “todo homem, em todo o homem e em todas as manifestações do homem”[6], de acordo com os ensinamentos do Magistério da Igreja[7]. A respeito ensina o papa João Paulo II: “O termo ‘aculturação’ ou ‘inculturação’ por mais neologista que seja, expressa a maravilha de um dos elementos do grande mistério da Encarnação”[8].
[6] [A consagração mediante os votos] Para realizar com maior perfeição o serviço de Deus e dos homens, comprometemo-nos com os três votos de: castidade pelo Reino dos céus (Mt 19,12); pobreza, vende quanto tens (Mc 10,21); e obediência, é melhor que os sacrifícios (1 Re 15,22), para seguir mais intimamente ao Verbo Encarnado em sua castidade, pobreza e obediência.
[7] [Fundamento] Queremos fundar-nos em Jesus Cristo, que veio em carne (1 Jo 4,2), e só em Cristo, e Cristo sempre, e Cristo em tudo, e Cristo em todos, e Cristo Todo, porque a rocha é Cristo[9] e ninguém pode pôr outro fundamento (1 Cor 3,11). Queremos amar e servir, e fazer amar e fazer servir a Jesus Cristo: a seu Corpo e a seu Espírito. Tanto ao Corpo físico de Cristo na Eucaristia, quanto ao Corpo místico de Cristo, que é a Igreja: formada por nós mesmos que, pela santidade de vida, devemos chegar a ser “outros Cristos” e por todos os homens nos quais vemos o mesmo Cristo, em especial, os pobres, os pecadores e os inimigos. Queremos ser “como outra humanidade sua”[10], queremos ser cálices cheios de Cristo que derramam sobre outros sua superabundância, queremos com nossas vidas mostrar que Cristo vive. E ao Espírito de Cristo porque é a alma da Igreja e porque se alguém não tem o Espírito de Cristo, este não é de Cristo (Rom 8,9).
[8] [Espiritualidade] A respeito, consideramos que nossa espiritualidade deve estar profundamente marcada por todos os aspectos do mistério da Encarnação: a) respeito à origem, b) às naturezas, c) à união das mesmas, d) ao fim.
[9] a) Quanto ao princípio: devemos ter profunda e radical devoção a Santíssima Trindade, princípio ativo da Encarnação; e a quem se apropria a mesma: ao Pai enquanto que é princípio do Filho –Eu saí e venho de Deus (Jo 8,42)– e ao Espírito Santo enquanto que é o Amor pessoal de que procedem todas as obras divinas –por obra e graça do Espírito Santo–[11]. Daí também se deriva a primazia do espiritual em todo nosso pensar, sentir e proceder, já que Deus é o que obra em vós o querer e o obrar segundo sua vontade (Flp 2,13), e porque é claríssimo o ensino do Verbo encarnado: Buscai primeiro o Reino de Deus sua justiça, e tudo o mais vos será acrescentado (Mt 6,33). Total abandono à vontade de beneplácito de Deus a exemplo da Virgem Maria: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo sua palavra (Lc 1,38).
[10] b) Quanto às naturezas, divina e humana: desejamos viver intensamente as virtudes da transcendência: fé, esperança e caridade, a fim de ser sal… ser luz (Mt 5,13ss) para não ser do mundo[12]. Daí a necessidade de oração incessante –orai sem cessar (1 Tes 5,17)– e das purificações dos sentidos e do espírito, ativas e passivas; se não fizéreis penitência, todos igualmente perecereis (Lc 13,3).
[11] Desejamos viver intensamente as virtudes do abaixamento: humildade, justiça, sacrifício, pobreza, dor, obediência, amor misericordioso…, em uma palavra tomar a cruz[13].
Há que estar no mundo[14] e assumir em Cristo todo o humano, já que “o que não é assumido não é redimido”[15] “e se constitui em um ídolo novo com malícia velha”[16]. O tempo ilumina os sacerdotes a modo de diretores espirituais, e forma aos leigos para que eles “tratem e ordenem segundo Deus, os assuntos temporais”[17]. Não assumindo “matéria” inassumíveis como o pecado, o engano, a mentira, o mal: abstende-vos até da aparência de mal (1Tes 5,22).
[12] c) Quanto à união: o centro de nossa vida deve ser Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, quem em sua única pessoa divina une ambas naturezas; por isso que em verdade confessamos o Verbo se fez carne (Jo 1,14), é mediador entre Deus e os homens (1 Tim 2,5) e é o Único que tem palavras de vida eterna[18]. É a pessoa término da Encarnação. De maneira particular deve manifestar-se nossa devoção a Jesus Cristo no mistério da Encarnação; em seu segundo aniquilamento do mistério da Paixão –supremo ato sacerdotal– que, por contraste, faz-nos admirar mais a profunda “Kénosis”[19] da Encarnação; e no mistério de sua Segunda Vinda, que constituirá a plenitude da Primeira Vinda. Intimamente unido ao mistério da piedade, que se manifestou em carne (1 Tim 3,16) e, portanto, a nosso amor, estão as três coisas brancas da Igreja: a Eucaristia que prolonga, por obra do sacerdócio católico, a Encarnação sob as espécies de pão e vinho; a Santíssima Virgem Maria, que deu o sim para que de sua carne e sangue o Verbo se fizesse carne[20]; e o Papa, presencia encarnada da Verdade, da Vontade e da Santidade de Cristo.
[13] Terá que abraçar a prática das virtudes aparentemente opostas, contra toda falsa dialética; terá que respeitar, sem misturar, as essências das virtudes; terá que evitar toda falsa duplicidade praticando a veracidade, a fidelidade, a coerência e a autenticidade de vida, contra toda falsidade, infidelidade, simulação e hipocrisia; terá que restaurar, integralmente, em Cristo, todas as coisas. Porque é necessário que Ele reine até que ponha todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. (1 Cor 15,25), O desígnio de reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra (Ef 1,10).
[14] d) Quanto ao fim: queremos, em Cristo, buscar a glória de Deus e o bem integral do homem. O Pai ao introduzir o seu Primogênito no mundo[21] manifesta sua glória: nós vimos sua glória (Jo 1,14) e em tudo queremos ter reta intenção: façam tudo para glória de Deus (1 Cor 10,31).
[15] Como “todo homem é em certo sentido a via da Igreja”[22] e “o mistério do homem só se esclarece à luz do mistério do Verbo Encarnado”[23], queremos trabalhar por seu bem integral descobrindo-lhe sua natureza, sua dignidade, sua vocação, seus direitos inalienáveis, sua liberdade, seu destino eterno obtendo a meta da fé, a salvação das almas[24]. Tudo o que conduza à visão de Cristo formado[25] nos homens, será para nós objeto de máxima atenção e ação apostólica.
[16] [Apostolado] De maneira especial, nos dedicaremos a pregação da Palavra de Deus mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4,12) em todas suas formas. No estudo e no ensino da Sagrada Escritura, a Teologia, os Santos Padres, a Liturgia, a Catequese, o Ecumenismo, etc. Na realização de missões populares, exercícios espirituais, educação e formação cristã de crianças e jovens e obras de caridade com os mais necessitados (crianças abandonadas, deficientes, doentes, anciões), etc. Na busca e formação de idôneos ministros da Palavra, na publicação de revistas, tratados, livros, etc., e em outras coisas. Pelo verbo oral e escrito queremos prolongar ao Verbo.
[17] [Escravidão Mariana] Queremos manifestar nosso amor e agradecimento a Santíssima Virgem ao mesmo tempo obter sua ajuda imprescindível para prolongar a Encarnação em todas as coisas, fazendo um quarto voto de escravidão Mariana segundo São Luis Maria de Montfort. O espírito de nossa família religiosa não quer ser outro que o Espírito Santo, e si se degenerar em outro, a partir de agora e desde qualquer lugar, comprometemos nossa súplica para que o Senhor o borre da face da Igreja.
[18] [Fidelidade ao Espírito Santo] Só na mais absoluta fidelidade ao Espírito Santo se pode usar destramente da espada do Espírito que é a Palavra de Deus (Ef 6,17). Nosso pobre alento unicamente é fecundo e irresistível se estiver em comunicação com o vento do Pentecostes.
[19] Para alcançar esta disposição de suma, total e irrestrita docilidade ao Espírito Santo, que é o Espírito de Cristo [26], necessitamos que a Santíssima Virgem seja o modelo, a guia, a forma de todos nossos atos, pelo o qual, com todas as forças da alma, e do coração, hoje e sempre, digamos “Totus tuus”, Maria! [27].
[4] João Paulo II, Discurso ao Conselho da União de Superiores Gerais (26/11/1979), p. 2; OR (23/12/1979), p. 13.
[5] Cf. Flp 2,7-8; PC, 5.
[6] Cf. Paulo VI, Ecclesiam Suam, nº 23-24.
[7] Em especial: GS, 53-62; EN, 20; CT, 53; etc.
[8] Discurso à Comissão Pontifícia Bíblica (26/04/1979); OR (12/08/1979), p. 11.
[10] Santa Elizabete da Trindade, Elevações, Elevação nº 34.
[11] Missal Romano, Credo; Dz 7.
[15] Santo Irineo, citado no Documento de Puebla, nº 400.
[16] Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, Documento de Puebla (1979), nº 400, 469.
[27] São Boaventura, (inter opera) Psalt maius, Canticum ad instar illius, Is 12 (Opera omnia - Vives, París 1868) t. 14, 221 a.b.; São Luís Maria Grignion de Montfort, VD, nº 216; Lema episcopal de João Paulo II.
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